quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O Corredor da Morte.

"Não gosto do culto da morte, de um James Dean morto, de um John Wayne morto. Eu presto culto às pessoas que sobrevivem" Citou John Lennon, como eu me apaixonei por essa frase após minha experiência de morte...

Eu Jhony tinha 30 anos quando dirigia meu carro em alta velocidade por um perigoso túnel em São Paulo, lembro-me de perder o controle e começar a capotar, após isso minhas recordações são bem além do que meus olhos físicos podem enxergar.

Naquele momento não sabia de nada do que estava acontecendo comigo, conseguia ver as lâmpadas todas embaçadas como se vê gotas da chuva caindo rapidamente, parecia eu estar atravessando um longo corredor, deitado até não poder enxergar mais nada. Provavelmente as lâmpadas do corredor de um Hospital.

Por um instante me senti leve, não sentia minha respiração, não sentia meu coração batendo, foi quando eu comecei a me ver lá de cima, eu estava levitando diante de meu corpo numa maca de UTI, via e sentia a sensação daqueles médicos tentando me reanimar, lembro-me que após alguns instantes de pavor não consegui ver mais nada.

Finalmente meu coração voltou a bater, mas eu ainda não podia viver, não com meu corpo físico, passei 6 meses em coma, 6 meses suficientes para me fazer acreditar em coisas que em 30 anos não acreditava.

Comecei a vagar por um corredor, via cenas da realidade assim como junto a elas e ao mesmo tempo via cenas do além, certa noite de carnaval o hospital estava bastante movimentado, o tempo todo via médicos com macas correndo pelo corredor, entre outras pessoas desesperadas.

Nesta noite quando eu vagava, o corredor ficou extremamente vermelho diante de meus olhos é claro, boa parte da "realidade" perdeu razão pelo que chamamos de fantasia, sombras de seres corcundas, com garras afiadas começaram a andar pelo corredor agora avermelhado, havia talvez uns 3 desses seres, não sabia o que eram eles, eram sombras que passavam pelas paredes sem uma base, sem um corpo.

Na primeira vez que vi tais sombras senti medo, a minha primeira emoção a ser sentida após estar fora de meu corpo físico, mas as sombras nada me fizeram, era frequente aquilo acontecer no corredor, elas entravam em portas de alguns quartos ou salas de cirurgia e pareciam cortar uma espécie de corda invisível a olho físico, corda que ligava o corpo com a alma, quando as sombras apareciam eu ouvia muitos gritos e ranger de dentes. Até que desapareciam levando algumas pessoas.

Após 3 meses vagando por aquele corredor, encontrei com uma idosa toda vestida de branco, ela saiu do quarto, parou por um instante e ficou olhando pra mim com um leve sorriso e levando em suas mãos um pequeno buquê de rosas vermelha, até que num segundo desapareceu, fui até o quarto em que ela estava, e lá os aparelhos cardíacos que sinalizava seu coração demonstrando uma parada cardíaca, ao lado do aparelho, um armário com um vaso em cima e rosas vermelhas secas.

Comecei a ver coisas e também sentir coisas que não dá para explicar talvez com palavras, havia passado 6 meses e no dia que consegui voltar a abrir os olhos do corpo passei por uma decisão muito difícil.

O corredor ficou inteiramente vazio e silencioso as lâmpadas foram apagando uma a uma, até ficar somente 2 acesas no meio, comecei a escutar risadas de uma criança, era uma menina que aparecerá embaixo das lâmpadas acesas enquanto eu estava no escuro.

A menina usava um vestido branco, segurava uma boneca, tinha cabelos ondulados e loiros, olhos bastante azuis, porém não tinha pés, apenas levitava, e estava parada na minha frente olhando pra baixo.

Eu fui me aproximando, era uma linda menina, quando eu me aproximava ela começava a cantar uma bela música com uma voz extremamente suave, e eu me aproximava mais, eu sentia paz naquele momento.

Mas quando eu cheguei mais perto do que podia, a menina para de olhar pra baixo e fixa seus olhos em mim, ao fixar, começa a abrir um imenso sorriso e começa a gargalhar, suas gargalhadas começam a engrossar, até que a menina corre para a parte escura do corredor.

As luzes voltam a acender uma a uma, o corredor ainda está vazio, só havia eu ali, quando vi manchas de sangue em forma de pisadas ao chão, de um pequeno sapato, mas poderia ser aquelas pegadas daquela menina sem pés?

o corredor começou a girar diante de mim, eu não conseguia ver muita coisa, parecia ter uma sensação de estar tonto e ao mesmo tempo ouvir sussurros em meus ouvidos, junto a gritos, choros e gargalhadas, enfim o corredor de novo vazio.

Aparece agora uma menina vestida de preto, meio pálida, cabelos despenteados e não segurava uma boneca, essa por fim tinha pés, não estava entendendo mais nada, ela olhava pra mim me chamando pelo nome e pedindo para segurar sua mão.

Aquelas sombras corcundas e de garras voltaram a aparecer naquele instante, mas desta vez pararam sobre a porta do meu quarto, pareciam estar me esperando, a menina dizia:

- Venha Jhony, não tenha medo, confie em mim.

Se fosse a menina vestida de branco e loira talvez eu seguraria em sua mão e confiava, mas a menina vestida de preto me passava medo e insegurança, porque roupa preta? Porque tanta palidez? Porque não cantava?

Eu por fim ficava parado, as sombras começaram a tentar entrar em meu quarto e a menina me dizia que eu teria que confiar nela antes que "eles" entrassem para cortar a minha corda espiritual.

Não pensei duas vezes, não sabia o que iria me acontecer ou para onde eu ia parar, apenas arrisquei, segurei na mão daquela menina e fechei os olhos, quando fechos os olhos revivi todo o momento em que meu carro capotou, me vi flutuando sobre o túnel e no fim dele havia uma luz branca.

Mas algo começou a me puxar pelos pés, me afastando daquela luz, era uma espécie de corda me puxando rapidamente para o meu corpo, quando dei por mim acordei assutado com médicos tentando me reanimar novamente.

Foi quando acordei do meu coma, hoje estou com 40 anos,faz 10 anos que tudo isso aconteceu, e até hoje não sei explicar, mas creio que se eu tivesse acreditado mais naquela menina que vestia de branco, que tinha cabelos loiros e olhos azuis do que na menina de preto de pouca beleza talvez eu não estaria aqui para contar história, não sei...mas quando eu voltar para o vale da morte, sei que posso encontrar as duas novamente.

Fim.












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