terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O GAROTO PROPAGANDA DO MAL.



Lembrei daquela manhã fria de Quarta-Feira, eu havia acabado de me levantar da cama por volta das 8:00 hrs, e assim que dei uma limpada no meu quarto desci até a cozinha para tomar o café da manhã.
Entre uma caixa de leite,iogurte, frutas e cereais fui preparando tudo que sempre gosto na primeira refeição do dia, aproveitei para ligar a TV para eu não sentir-me tão sozinha no silêncio matinal de minha casa.
Já quase terminando minha refeição observo com uma certa concentração uma propaganda que passava na Tv, um garoto loiro por volta de lá seus 13 anos de idade usando um grande sorriso sem parar, seus olhos claros pareciam imóveis e fixos para a câmera conforme você assistia o comercial tinha uma estranha sensação de estar sendo observado pelo garoto.
Tratava-se de uma propaganda de iogurte, porém a marca pra mim era desconhecida, talvez uma marca nova, pra falar a verdade o iogurte não me chamou nada a atenção, mas expressão facial daquele garoto propaganda me fazia assimilar como algo monstruoso, sabe? Coisas de outro mundo.
Bom, o comercial era assim: Era noite e aquele menino de seus mais ou menos 13 anos estava com insônia, então ele decidiu descer as escadas ir até a cozinha (tudo isso com uma lanterna na mão).
Me lembro que o garoto sorria o tempo todo, tipo assim, o tempo todo mesmo sabe? Continuando o comercial, após ele chegar na cozinha ele abre a geladeira e fica então aquele cenário de lugar escuro com uma única claridade, claro a da geladeira, que clareava todo o rosto do sorridente garoto e partes de seu corpo, nessa parte ele lembra que sua mãe disse que não era pra ele tomar iogurte pois ele não havia jantado direito.
Então após lembrar disso seu sorriso ia só aumentando, parecendo um sorriso diabólico mesmo, de quem está aprontando, como se desobedecer a mãe fosse um prêmio de coragem.
Nesse instante o garoto propaganda olha novamente pra câmera segurando dois potes de iogurtes, todo o cenário de cozinha permanecia escura, tendo somente o garoto em frente a geladeira com a luz da mesma.
Até aqui tudo bem, nada demais nada de tão estranho, vocês que estão lendo devem estar pensando que eu tenho probleminha, que devo ser uma débil-mental...Mas é agora que o mais estranho acontece...ou aconteceu.
Bom, voltando a propaganda, na parte do garoto na geladeira olhando pra câmera sorrindo com cara de tipo "nossa sou fodão, desobedeci mamãe" o comercial simplesmente congela, sim fiquei esperando por 10 minutos a TV voltar com sua programação normal enquanto eu ali na mesa tomava café.
Levantei-me e fui trocar de canal mas só tinha um probleminha, todos os canais que eu mudava nada acontecia, o garoto desobediente da mãe ainda estava na minha tela da televisão olhando para mim e sorrindo.
A primeira coisa que eu pensei foi que a Tv simplesmente havia pifado, fui para desligar no botão mas a propaganda ainda se mantinha congelada na tela, nem mesmo fazendo o mesmo usando o controle remoto adiantou.
Só via uma solução para me livrar daquela visão estranha, tirei então o fio da TV na tomada, mas estranhamente o comercial ainda estava congelado com aquele garoto ''lindo'', mas como aquilo ainda funcionava mesmo fora da tomada?
Na hora não liguei tanto assim pra aquilo, podia ainda assim ser um mero tipo de defeito, sei lá, fui arrumar a casa, tinha mais o que fazer, enquanto esfregava um pano no chão da sala ouvi então um barulho na cozinha de panelas caindo.
Fui correndo pra ver, as janelas e portas ainda estavam trancadas, nem se quer ventava, eu não tinha animais tipo gato que pula no alto e etc, se não foi nada disso então como várias panelas de vários lugares diferentes da cozinha caíram?
A base em que as panelas estavam apoiadas permaneciam firmes na parede, fui arrumar toda aquela bagunça, quando escuto um chiado de tv, olhei pra tv da cozinha e percebi que a imagem do garoto propaganda estava ficando diferente.
Seus olhos fixos para a câmera (ou para mim) estavam vermelhos, tipo com as pupilas mega vermelhas mesmo, o sorriso já estava acabando, sua expressão geral do rosto parecia de alguém que estava muito bravo, seu rosto pálido parecia estar se deformando feito nuvens no céu levadas pelo vento.
Ver aquilo já estava me deixando completamente amedrontada, primeiro panelas caem sozinhas, depois me deparo com um menino na propaganda estranha de iogurte se deformando em uma tv fora da tomada?
Rezei então em silêncio conforme ia arrumando a bagunça da cozinha, resolvi também ligar o radio da cozinha para ouvir programas religiosos católicos que minha mãe costuma escutar todos os dias.
No rádio um padre começava a falar coisas tipo, sobre maldições familiares, carmas de gerações e etc, após falar sobre tal tema o padre começou a fazer a oração de São Bento, antes mesmo que pudesse terminar a mesma, o rádio perdeu o sinal e começou a chiar, conforme eu ia tentando sintoniza-lo novamente notei que durante o chiamento havia um som de gritos, com choros.
Desisti e desliguei o rádio, olhei novamente para a tv e o garoto estava mais feio ainda, mais deformado, seu sorriso estava fechado, e pra piorar o meu medo, estava nascendo dois pequenos chifres em sua testa.
Não era possível aquilo estar acontecendo comigo sozinha em casa, não pensei duas vezes para me livrar daquilo, peguei um pedaço de madeira que encontrei na varanda e fui mirando no alvo que era a tela de televisão.
Quando por fim criei coragem e força nos braços, os olhos do garoto propaganda chifrudo se mexeram, suas vermelhas pupilas perderam o ponto fixo reto e quando achei que não podia piorar, ele estava olhando pra mim já que a tv estava mais baixa e eu em pé.
Saí correndo da cozinha, fui pra casa de uma vizinha, ela vendo o meu estado acabei tendo que contar tudo que estava acontecendo em casa, achei que ela ia debochar de mim, duvidar e tudo mais...porém ela ficou tão horrorizada quanto eu e pediu para que eu a levasse até a Tv onde tudo acontecia.
Chegando lá a aparência do garoto já era quase irreconhecível de tão deformado que seu rosto estava, mas era um tom de deformação real, não pelo fato da tv estar com defeito, sua expressão facial agora era de uma pessoa furiosa, não havia mais sorriso, seus chifres estavam maiores ainda, seus dentes cresciam, sua pele cheia de ferimentos.
Minha vizinha notou que a tv estava fora da tomada, estava pálida com o que acabara de ver, se cortasse sua pele talvez nem sangue sairia de tão pálida que ela ficou, me pediu então alguns segundos que já estava voltando, pedi para que ela não fosse pois eu já não tinha mais psicológico para tudo aquilo.
Esperei por ela no portão de minha casa, menos de um minuto ela volta com um pedaço de papel na mão, ela me pedia que voltássemos até a cozinha.
Quando chegamos lá, havia um cheiro pútrido por toda a cozinha, um líquido vermelho escorria de dentro da televisão, seria sangue? Mas diante de tantas coisas estranhas ali acontecendo isso seria só mais um fenômeno.
Minha vizinha e eu fomos até a sala onde ela abria o papel dobrado que estava em suas mãos, após olhar novamente o menino na minha tv, ela me mostra o que em suas mãos trazia, aparentemente parecia um recorte de jornal velho.
Quando olho para o pedaço de papel, vi então uma reportagem, a primeira foto era de um menino morto sem os olhos, sim o jornal havia na época fotografado e sem censuras mostrado cada foto, e sim o menino mesmo sem os olhos na foto era o mesmo garoto que aparecera no anuncio de iogurte na minha tv.
Minha vizinha dizia que há 23 anos atrás época daquela matéria de jornal, uma família havia acabado de perder todos os seus bens, toda a sua fortuna, uma família que dava seu sobrenome a marca do iogurte e derivados de leite em que produziam na época.
Após a fábrica falir eles se mudaram então para uma casa menor, ou seja, a casa aonde eu estava morando, a casa aonde uma tv funcionava sem energia elétrica e um rádio novo de boa sintonia que passando uma corrente de oração parava de funcionar.
Minha vizinha contava que aquela família após perder toda a fortuna que vinha da produção de seu famoso iogurte começou a agir de forma estranha.
Ela me contara que uma certa madrugada acordou com os membros da família desenhando um pentagrama no jardim com o menino (da tv) filho mais novo deles deitado no meio daquele desenho.
Segundo a minha vizinha ou ex-vizinha, a família acreditava que sua fábrica faliu por causa de uma maldição de seus antepassados e que se sacrificassem um de seus membros aquela maldição seria quebrada tendo então eles de volta toda a fortuna de antes.
Dizia então as testemunhas que viram o sacrifício que todos da família pareciam estar em transe, muitos vizinhos tentaram acudir o garoto que estava deitado na grama, mas mesmo chamando-os e gritando, todos pareciam não ouvir nem ver nada, apenas executaram o garoto arrancando então seus olhos há 23 anos atrás, bem ali na graminha em que eu gostava de plantar as minhas flores.
Após ler todo o recorte de jornal velho contando em detalhes o ocorrido com direito a endereço e tudo não pensei duas vezes, aquela casa estava com uma perturbadora presença, lembro-me de achar inúmeros pedaços de ossos toda vez em que ia plantar minhas flores, achava normal, que fosse apenas restos de animais mortos ali e pronto.
Mas agora tudo fazia sentido, o garoto em minha TV, tudo, não pensei duas vezes em mudar daquela casa, deixei no porão a tv que ainda trazia em sua tela a imagem do garoto.
Ao retirar alguns pertences meus das gavetas da cozinha (as quias já faziam parte da casa) encontrei alguns potes de iogurtes, claro, vencidos, notei que eram iogurtes super velhos, até reparar que era do mesmo iogurte em que o garoto na propaganda tomava, abri um para ver (curiosidade) e me arrependi, havia uns mil vermes ali dentro, fora aquele mesmo cheiro de podre que senti na cozinha.
Atualmente moro sozinha em um apartamento de um condomínio novo, onde ninguém morou aqui antes, nunca mais vivi esse tipo de fenômeno, e confesso que depois de ver aqueles potes velhos de iogurtes, ando substituindo por sucos naturais, minha antiga vizinha me disse que a minha pequena Tv da cozinha que deixei no porão da antiga casa finalmente desligou, porém também nunca mais voltou a funcionar, que descanse em paz!



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

NOITES INFERNAIS


NOITES INFERNAIS


''A única coisa tão inevitável quanto a morte é a vida.''
(Charles Chaplin)



''- Mamãe, mamãe... eu tive um pesadelo, posso dormir com você?
- Oh minha filha, claro que pode, mas já passou, você apenas sonhou, não precisa ter medo de algo que não passou da sua imaginação, agora vamos dormir!''

Que saudade dessa época, eu tinha apenas 10 anos de idade e minha mãe tinha razão era apenas fruto da minha imaginação aqueles sonhos ruins, mas os meus medos eram reais o que me impedia de lutar contra aqueles monstros de mentirinha.
Em 1988 mudamos minha mãe e eu pra nossa nova casa, papai havia acabado de comprar e quitar, porém morreu uma semana antes da nossa mudança, ele estava pintando o topo do segundo andar do lado de fora da casa quando a corda que o sustentava se rompeu, sua cabeça chocou-se com uma pedra logo abaixo, o que fez espalhar pedaços de seu cérebro longe.
A pericia não soube explicar ao certo o motivo do acidente já que todo o equipamento parecia estar em perfeito estado, mamãe passou a se vestir de preto em sinal de luto, confesso que ela mudou muito também o seu comportamento, estava ficando cada vez mais agressiva e sem paciência comigo, chorava pelos cantos e mal comia, ia emagrecendo muito.
As coisas na nossa nova casa eram um tanto bizarras, os antigos moradores deixaram para trás inúmeros quadros com o retrato do Charlie Chaplin, um grande humorista do cinema mudo, inclusive em meu quarto havia um na parede acima da cabeceira da minha cama.
A casa era de dois andares, e os quadros do finado artista ficavam espalhados por todos os cômodos, concentrado sua maior parte sobre a parede entre a escada, os corredores dos quartos e os próprios quartos, confesso que me incomodava um pouco, pois as obras pareciam um pouco macabras, o rosto de Charlie Chaplin parecia ser pintado de uma forma sombria.
Minha mãe estava cansada, passou a tomar seus comprimidos para dormir, a primeira noite na nova casa ficamos sem energia, e chovia muito forte lá fora, como acabamos de nos mudar, havia ainda caixas de papelão espalhados por todo o lado, no meu quarto havia alguns ainda lacrados.
Os homens que nos ajudaram na mudança apenas montaram minha mesinha de fazer lições de casa ou para leituras, tinha também a cadeira que eu sempre deixava de frente para essa mesa.
Havia uma vela acesa em cima daquela mesa já que faltava energia, o som dos trovões e os ''flashes'' dos relâmpagos me deixaram com medo, porém sabia que minha mãe não andava muito bem, estava sempre de mau humor, seria melhor não incomoda-la e ficar quieta em meu quarto.
Acabei adormecendo por algum tempo, mas fui pega com um susto de um estrondo alto de trovão, escorei um pouco na cabeceira da minha cama e reparei que a cadeira que eu havia deixado de frente a minha mesinha não estava mais em seu lugar, mas sim do lado da cabeceira de minha cama.
Lembro-me que não havia deixado ela ali, talvez minha mãe tenha perdido o sono e veio me ver e tenha ficado ali sentada me vendo dormir, pensava eu...
Não perguntei nada a ela, pois naquela manhã mamãe acordara ainda mais agressiva e sem paciência, estava nervosa com a bagunça toda que tinha para arrumar, eu perguntei se aqueles quadros permaneceriam lá, pois me assustavam, mas ela me deu uma má resposta:
- Está na hora de você dar um basta nessas suas loucuras, tudo te assusta, tudo te dá medo, tudo tem que perder o sono, já estou cansada desses seus mimos, e só porque te assusta os quadros vão ficar aonde estão, para você aprender a encarar os seus medos de frente! Agora trate de me ajudar.

Fiquei em silêncio, ela não era daquele jeito, muito pelo contrário, a morte do papai afetou muito ela, e eu pagava todos os dias com aquele comportamento cada dia pior, eu vivia um pesadelo, naquela nova casa, enorme e sombria, com aqueles quadros diabólicos e a amargura da minha mãe.
Na segunda noite eu me sentia muito cansada, havia ajudado mamãe com os móveis e a decoração, a energia funcionava normalmente, e eu assim que me deitei exausta logo apaguei de sono, mas novamente acordei no meio da madrugada, desta vez com meu próprio tombo, eu caí da cama e esbarrei em algo pontiagudo ou sei lá... e acabei machucando feio o meu braço esquerdo, eu sangrava muito e corri pro quarto de minha mãe que com muito custo acordara, ela pegou seu quite de primeiros socorros e me fez um curativo.
De poucas palavras ela me deixou até meu quarto e viu que novamente a cadeira estava ao lado da cabeceira da minha cama, e não perdeu a oportunidade de me dar uma bronca por ter me machucado por causa daquela cadeira ali fora do lugar.
Logo vi que não era ela então que a deixava ali o objeto ao lado da minha cama, comecei a sentir mais medo daquela casa, sem sono acendi a lâmpada do meu quarto e analisei melhor um dos quadros o qual estava na parede acima da minha cama, Charlie Chaplim estava ao lado de um cachorro, e olhava fixamente para quem olhava ali seu retrato.
Ouvi então passos na escada, como se alguém estivesse descendo , achando que fosse minha mãe resolvi ir até a cozinha pra beber um pouco de água mas estava tudo escuro, acendi as luminárias e prestei atenção em outro quadro que ficava no centro da parede da escada, desta vez era Charlie Chaplim descendo uma escada.
Fui até a cozinha mas não havia ninguém ali, ao terminar de beber um copo d'água uma faca caiu ao chão sozinha, saí dali correndo, mas preferi evitar contar pra mamãe.
Na terceira noite as coisas pareciam piorar, acordei sob uma poça de sangue sobre meus lençóis, a minha ferida no braço parecia doer mais, parecia piorar, e a cadeira que mais cedo me certifiquei de deixar no lugar novamente estava ao lado da minha cama.
Após ir ao hospital e fazer um novo curativo a enfermeira me perguntou se minha mãe estava bem, pois ela achava aquela minha ferida no braço muito parecida com um corte feito por uma faca.
Com aquilo na cabeça decidi na próxima noite trancar a porta e até janelas, foi o que fiz, sei que minha mãe não estava bem mas jamais acreditava que ela faria algum mal a mim, antes de dormir certifiquei-me novamente de que a cadeira estava de frente a mesinha.
Acordei as 3:00 da madrugada com um barulho estranho em meu quarto, eu que cobria até a cabeça levantei-me lentamente para averiguar de que barulho seria aquele, peguei minha lanterna e vi a cadeira no meio do caminho entre a minha cama e a mesinha, cobri todo o meu rosto novamente e tentei ganhar fôlego, era a pior situação de medo já vivida desde então por mim.
Em um ato de ''coragem'' retirei novamente as cobertas de meu rosto e liguei novamente a lanterna, a porta e as janelas estavam intactas, e a cadeira não estava mais no meio do caminho e nem de frente a mesinha, senti então um ar quente sobre o meu pescoço, e ali do lado da minha cama estava a cadeira, olhei lentamente e com a lanterna projetei a luz, e na cadeira havia um homem sentado.
Era um homem muito alto que vestia um terno muito parecido com a do Charlie Chaplim em seus quadros, em sua mão esquerda segurava uma bengala e na outra uma faca, congelada com o que estava vendo velando o meu sono todas as noites, clareei a luz sobre seu rosto.
O homem usava uma cartola, seu bigode era grande e curvado, sua pele pálida e sua boca toda costurada, ele me olhava com maldade, pegou então sua faca e cortou o costurado de sua boca, após fazer isso vomitou pura terra seca.
Saí dali correndo em direção ao quarto de minha mãe, aquilo não era mais pesadelo, a porta do quarto dela estava trancada, gritei e bati na porta inúmeras vezes mas lembrei que seus remédios para dormir eram bastante fortes, fiquei ali parada sentada ao chão por alguns instantes.
Mas o tempo de paz foi curto, logo a minha cadeira fora arremessada contra a parede do corredor, a força de como o objeto foi jogado era tão forte que pouco se sobrou dele.
Houve alguns segundos de silêncio até eu ouvir passos fortes sobre o assoalho, as pilhas da lanterna que eu utilizava estavam ficando fracas, fazendo que eu enxergasse pouco do que ali surgisse, os passos ficavam cada vez mais próximos de mim, e novamente comecei a ver a sombra negra daquela figura alta, usando terno e chapéu escuro, uma mão apoiando sobre uma bengala , a outra segurando uma imensa faca de cozinha.
Quando aquele ser quase pôde me tocar, a porta do quarto de minha mãe abriu, ela me pôs pra dentro rapidamente e trancou a porta, do lado de dentro da porta havia uma imensa cruz desenhada com algo vermelho, similar a sangue, mas não quis questionar se fato era aquilo mesmo.
Ela dizia para eu não me preocupar mais, pois ele não podia entrar ali, e que estávamos protegidas, de início aquele homem começou a rosnar, gritar, e até bater na porta quase arrancando-a, seus passos fortes se distanciaram com o barulho de sua bengala no assoalho, ouvia-se no quarto ao lado objetos de decoração e móveis sendo lançadas pelas paredes e ao chão.
Algo muito forte parecido com um vento forte passou pelo corredor devastando todos os objetos presentes, não parecia mais algo humano derrubando tudo que ali havia, foi a pior noite de nossas vidas, ninguém nos avisara sobre o passado daquela casa, perdemos a paz desde que nos mudamos pra lá.
Logo o silêncio pairou novamente sobre toda a casa, passamos horas minha mãe e eu acordadas esperando o amanhecer, eu acabei cochilando um pouco e acordando já com a luz do dia.
Mamãe tomava seu banho de banheira matinal o que era sagrado, pensei em escovar os dentes, o box da banheira estava aberta e foi inevitável não ver aquela água que minha mãe tomava banho cheia de sangue.
Ela estava sentada na banheira se ensaboando, estava de costas para mim, vi suas costas cheia de feridas, algumas tão profundas que dava para ver sua carne quase exposta pra fora, ela chorava em silêncio, até eu derrubar uma saboneteira sem querer e ela me pegar de surpresa a observando.
A principio mamãe ficou agressiva, dizia que não era para eu estar ali naquele momento, fiquei esperando ela na cama até que se vestisse, mais calma ela me contou que aquele ser a visitava todas a noites, ameaçando me machucar implorou para que a matasse aos poucos se necessário, mas que jamais me machucasse.
Tudo ficou claro, aquele homem, aquele ser, pegava a minha cadeira e velava meus sonos bem ali do meu lado, em uma noite que mamãe estava revoltada e se encheu de comprimidos ele resolveu não só visitar o meu quarto mas me machucar com a sua faca, me derrubando em seguida da cama para que mamãe pensasse que fosse só um acidente.
Abrimos a porta do quarto bem devagar e nos deparamos com diversos objetos e móveis caídos sobre o chão, a única coisa que estava intacta ali eram os quadros em seus devidos lugares Charlie Chaplim em seus diversos retratos e poses, e um cabideiro, do qual estava pendurado um terno com suas mangas estendidas e um chapéu em seu topo o que nos assustara,
Abandonamos a casa no mesmo dia, com móveis quebrados e tudo, fomos morar na fazenda da minha avó, mãe de minha mãe, depois nunca mais vimos aquele homem infernal, alguns anos mais tarde pesquisei na internet mais sobre aquela casa, a imprensa divulgava uma história trágica de uma mãe e um filho que sofria de esquizofrenia, ele era obcecado por Charlie Chaplim, todos os dias assistia seus filmes mudo, comprara todas as cópias de seus retratos...
Comprara também roupas e chapéus similares aos do artista, porém o rapaz era muito agressivo também, e gritava muito durante as madrugadas, o que fez sua mãe cansar daquela situação e envenenar seu chá em uma manhã, livrando-se daquele filho problemático.
Após poucos goles de chá o homem caí sobre o chão desacordado,derrubando talheres e facas, sua mãe havia arquitetado tudo muito antes de por em prática aquele homicídio, a cova no quintal estava aberta em um canto cheio de arbustos, o arrastando até lá sozinha.
Em seguida para evitar que o rapaz não esteja morto de vez, a mulher encheu a boca de seu filho com terra em seguida costurando-a, ao se levantar para finalizar seu macabro plano o rapaz abriu os olhos retirando de sua cintura uma faca, das quais caíram consigo ao chão da cozinha, uma facada na perna antes da perfuração fatal que matou sua mãe, em seguida morreu ao lado da mãe banhada em sangue.
Segundo várias pesquisas de vários sites diferentes essa é a história do passado daquela casa, minha mãe acha que a morte do papai tem a ver com tudo aquilo que aconteceu de sobrenatural na casa, não conseguimos vende-la, dizem que vândalos e andarilhos a invadiram, resta saber se o espirito daquele homem ainda se habita por lá, com seu terno, seu chapéu, sua bengala, seu rosto pálido com seu bigode curvado, e sua faca em uma das mãos.