A casa para
a qual acabara de me mudar me
proporcionou uma certa solidão por morar sozinho, comprei uma casa grande
demais só para mim, a cozinha era grande demais, e na sala havia uma escada em
caracol que conduzia ao segundo andar.
Fui me
acostumando com a solidão daquela imensa casa aos poucos, o mais estranho era
não sentir essa sensação antes que pudesse fechar negócio de compra com o
antigo morador, tudo de negativo foi acontecendo assim que me mudei.
Porém o
estranho mesmo só estava começando, na primeira semana na minha casa nova o
problema era em mim (o meu adaptar por ali) mas com o tempo o som sob o
silêncio noturno daquela casa me causava um certo desconforto, o que eu
considerava maior ainda aquela estranha sensação de negatividade assim que puis
os pés ali para morar. Na noite seguinte fui acordado por uma menininha que
aparentava ter 5 anos de idade, ela puxava as minhas cobertas e me sorria, logo
correndo e sumindo, o que me fazia acreditar que estaria só sonhando.
Lembro-me da
primeira manutenção ao chamar um eletricista após todas as lâmpadas da casa se queimarem
todas de uma só vez, enquanto o homem no topo de uma escada de ferro verificava
o problema da rede elétrica analisando a lâmpada da sala, fui verificar os
peixes ali perto no aquário.
Já que para a manutenção era necessário desligar
o padrão pude ver que tudo corria bem ainda com os peixes, antes que pudesse me
virar de volta aonde eu estava, o aquário voltou a ‘’funcionar’’ mas espere,
sem energia? Logo o eletricista cai no tapete da minha sala, duro e desacordado,
havia fumaça saindo por todos os lados, o homem ainda respirava e chamei a ambulância
Logo as
lâmpadas da casa estavam todas acesas, havia algo de muito errado ali, eu não
estava confuso mas aquela casa parecia querer me confundir, mas eu não ia
deixar isso acontecer, foi quando gritei sozinho:
- Você quer
me desafiar, casa? Pois tenha uma sorte muito maior pois eu agora faço questão
de ficar aqui – Que bobeira, pensei depois desse grito. Poderia ser apenas um
problema de eletricidade comum do qual o antigo dono não havia me contado.
Contudo
problemas com lâmpadas não tive mais, mas os estranhos sons noturnos voltavam,
e ainda mais frequentes e mais altos, portas dos outros quartos batiam mesmo
com a casa toda fechada, o que me acordava assustado, sem falar nos passos das
escadas o que me fazia dormir com a porta trancada todas as noites e a
menininha que eu vi noites atrás aparecia também novamente em meu quarto, estava
sentada no chão e chorando até subitamente sumir do nada.
Me mantive
forte e tentava ignorar o que de mais estranho e misterioso estava vivendo na
minha então atual fase da vida, de dia eu trabalhava e lidava com problemas das
contas de uma grande empresa, mas o que realmente me motivava gostar cada vez
mais de estar trabalhando, fazendo cálculos, tendo cobranças e rodeado de gente
era a solidão, e minha grande casa só minha no calar de todas as noites, aonde
eu deveria ter paz e silêncio.
Após começar
a ver vultos o tempo todo para onde eu ia dentro daquela casa, cheguei ao meu
limite e decidi vende-la, motivo? “Ah, eu sou sozinho e quero um apartamento ou
uma casa menor” Usaria eu como argumento de uma venda futura, claro que o
motivo era a casa estar me deixando literalmente louco.
O primeiro
passo era começar a montar minha divulgação de venda pela internet, peguei
minha câmera profissional e fotografei tudo, cada cômodo, partes externas,
internas, enfim tudo foi alvo para um super detalhamento de um cara desesperado
para vender uma casa mal assombrada.
Quando fui
passar as fotos para o computador para que logo eu pudesse edita-las notei o
que no momento em que eu fotografara lá não havia, em duas fotos da sala
aparecia um braço não humano e nem animal, a mão desse braço segurava um tridente,
sim aqueles ‘’garfos’’ gigantes simbolizados em que o diabo supostamente usa.
Na foto
seguinte havia um corpo inteiro do qual pertencia o braço, o ser estava de
costas, mas não tinha uma aparência do diabo do qual temos o costume de ver em
ilustrações ou fantasias, não tinha uma cor especifica e era muito contorcido.
Nas demais
fotos havia rostos sem corpos desfigurados presos nas paredes, na área externa
da casa as fotos apareciam pessoas bem ao longe olhando para a câmera, sem
falar na menininha que parecia me acenar para a foto, ela estava praticamente na
minha frente de tão perto que na foto ela aprecia.
Ao terminar
de ver todas as fotos, dei um susto que me fez empurrar a cadeira que eu estava
sentado para trás, logo os alarmes da casa começaram a dispararem sozinhos, o
que fez meu coração disparar ainda mais, desci escada abaixo correndo de medo,
tropecei e fui rolando até não me lembrar de mais nada e acordar em um
hospital.
-O que estou
fazendo aqui? Como eu vim parar aqui? – Perguntava eu para a enfermeira.
Logo ela me
contara que a ambulância recebeu a ligação de que eu precisava urgente pois
havia sofrido uma queda do alto da escada, ela me falava que era uma voz de
criança, uma menina, e me perguntava se era a minha filha, eu confuso, bobo e
sem voz apenas acenei positivamente com a cabeça para a enfermeira.
Após algumas
cirurgias, com alguns dias vem a alta do médico, braço esquerdo e parte da
perna direita enfaixados, pego um táxi e volto pra casa, era estranho voltar,
aquele lugar eu nem conseguia chamar de minha casa, até o hospital aonde estive
por algumas semanas parecia ser mais tranquilo do que aquele lugar.
Com algumas
dificuldades ainda para andar, tive uma ideia de finalmente procurar algum médium, meu
avô era espirita e conhecia alguns dos mais experientes e dedicados, enfim
consegui por indicação do mesmo um que com prontidão após ouvir o meu
depoimento por telefone logo chegou naquela casa aonde eu morava.
Ao abrir a
porta havia um homem mais velho e ao seu lado uma moça mais nova, era filha do
mesmo que sempre o acompanhava para auxilia-lo, logo que ele entrou na sala o
homem se contorceu e ficou parado naquela posição por alguns segundos até
voltar ao normal.
Logo com a
ajuda de sua filha, o homem dizia existir uma presença ruim tão forte naquela
casa que chegou a encosta-lo, quase o fazendo ter uma incorporação maligna, ele
ficou tão bambo que logo assentou-se na poltrona mais próxima da janela.
O médium foi
objetivo e logo me deu o diagnostico espiritual da casa, havia um espirito ao
seu lado segundo ele, pedindo ajuda e contando tudo que precisava saber, ao
fechar os olhos em um tom de concentração total o homem começou a falar.
“-Há séculos
atrás havia uma tribo de índios onde hoje é essa casa, os índios seguiam uma
seita onde ofertava diversos animais mortos ao lado de uma imensa imagem de
madeira, era a imagem de um demônio sem doutrina, esse ser foi evocado das mais
profundezas do inferno pelo índios, após a evocação, os índios tornaram-se
canibais devorando uns aos outros até distinguir toda a tribo, sobrando apenas
a imagem daquele demônio ali intacto por muitos e muitos anos, desde então a
imagem foi se acabando pelo tempo, porém o lugar virou moradia do mal e quem
ousar querer ali se abitar de uma forma ou de outra será expulso.”
Agora fazia
sentido, eu estava lidando com forças muito piores do que eu pudesse imaginar,
por isso o valor tão baixo pelo que comprei aquela casa, agora tudo fazia
sentido, ou não...o médium me contara que aquela presença nas fotos o que
segurava um tridente era o demônio (habitando em minha sala) os demais que
apareciam, eram espíritos presos por aquele ser, ele os prendia porque aqueles
mesmos espíritos eram antigos moradores de outras casas que antes já foram construídas
ali, onde atualmente era a minha casa.
O médium dizia
que o que tinha quer feito era eu sair dali o mais rápido possível pois aquele demônio
não aceitava ninguém ali se habitando, eu corria um serio risco se permanecesse
ali, era muito perigoso, eu continuar morando naquela casa era a maior
provocação e desafio contra um ser sem doutrina, dizia o homem a mim.
- Nem mesmo um
padre e nem mesmo eu pode expulsa-lo daqui para sempre, o que eu posso fazer é
diminuir as forças do demônio que aqui se habita por alguns dias, ou talvez
algumas horas, mas tenha certeza de que quando ele retomar suas forças, ele não
virá com um humor nada bom, posso te dizer meu jovem que a minha presença aqui
já o incomoda podendo trazer um risco ainda maior pra você aqui quando estiver
sozinho – continuava o médium a me dizer.
Me senti
completamente impotente diante da minha atual situação, com tantos problemas
terrenos que a vida nesse mundo nos oferece, fui logo me meter com forças de
outros mundos? O médium de certa forma me ajudou, mas ele sabia de seus
limites, tratava-se de um ser sem doutrina cujo poucos padres, pastores ou médiuns
podiam lidar.
Antes de
fechar a porta e me despedir daquele médium ele sorriu pra mim deu de olhos ao
meu lado e em seguida me olhou dizendo que apesar de ‘’alguém’’ contra a minha
presença, ali havia uma garotinha amiga minha, ela morreu muito cedo quando
morava com seus pais a anos atrás naquele mesmo lugar antes de ser aquela
imensa casa atual, o homem então despediu-se e logo saiu apressado.
Lembrei-me
da ligação de ajuda feita por uma menina quando cai da escada em que a
enfermeira me contou, com muito cuidado subi as escadas e fui até o meu quarto
olhar novamente as fotos que ficaram salvas no computador, a casa estava calma
até então, nenhum rangido nenhuma porta batendo sozinha ou passos na escada.
Pude olhar
com mais calma cada foto que tirei da casa, e tudo vinha a tona, o medo, a
preocupação, meu Deus só de olhar aquele tridente em aparição na foto eu
arrepiava até a espinha, nunca vi algo tão real assim, e o pior que sabia que
não se tratava de montagem ou coisa parecida, tudo o que aquelas fotos
mostravam era tudo que dentro da minha nova casa existia mas eu não enxergava.
Pensei
comigo mesmo, se eu continuasse ali poderia morrer a qualquer momento e ficar
preso sendo escravizado por aquele demônio, assim como todas as outras almas
daquelas pessoas que já moraram por ali, inclusive a minha nova amiguinha, uma
menininha que me apareceu sorrindo e chorando.
Por fim não
pude postar aquelas fotos divulgando tudo o que aparecia nelas, senão jamais
venderia a casa mas coloquei uma placa no portão lá fora anunciando a venda,
dois dias depois um casal com uma menininha de aproximadamente 7 anos aparecem
querendo olhar melhor a casa.
Juro que
gelei, abri a casa para mostrar aos futuros moradores fiquei tenso com medo de
que algum fenômeno comum ali vir a acontecer, estava finalmente quase me
livrando daquele pesadelo, porém estaria
repassando aquele pesadelo para aquele casal e aquela inocente criança que
acabara de gostar da casa querendo fechar negócio.
Ao ver a
imagem daquela menininha filha do casal me olhando sorrindo docemente, meu coração partiu-se em pedaços,
lembrei-me do espirito amigo da menininha que me ajudou não sei como mas
ligando para a ambulância quando mais precisei, “ela deve estar chorando por
ai, decepcionada comigo” pensei comigo mesmo.
Eu queria
muito me livrar daquela casa e essa era a minha tão sonhada chance, mas quando
olhei a inocência daquela criança que seria a futura moradora e a futura
escrava daquele demônio que ali vivia, por minha culpa? Torci para que algum fenômeno acontecesse, “Qualquer
coisa, qualquer coisa, vai, eu sei que você está aqui, faça o que você sempre
faz quando estamos sozinhos, bata as portas, derrube as panelas, faça barulhos
de passos na escada...” novamente pensava comigo mesmo.
Mas nada de
anormal acontecia enquanto o casal aguardava da minha boca uma resposta
positiva para a compra da casa, engoli um pouco de saliva e me senti contra a
parede, era eu meu livrar de um grande pesadelo Vs Eu me sentir culpado pelo
resto da vida por colocar uma criança inocente naquela situação horrorosa, mas
o coração falou mais alto do que a razão.
- Vocês me
desculpem, ma..mas a casa não está a venda, digo a casa não está mais a venda!
É que eu decidi de última hora não querer vende-la mais, peço mil desculpas mas
é que aqui é bom demais, então pra que eu querer vende-la? – Dizia eu dando
leves empurrãozinhos aos ombros do casal os direcionando até a rua.
Sem chances
de dizerem nada e surpresos o homem e a mulher vão caminhando aos poucos e se
afastando, a menininha carregada pelo pai virou o rosto em minha direção e me
sorriu, eu então sorri de volta e logo voltei pra dentro daquela casa, me senti
leve como uma pluma de olhar aquele sorriso inocente se livrando de um demônio por
minha causa.
Sentei-me no
sofá da sala e um caos tomou conta de toda a casa novamente, “estava bom demais
pra ser verdade” alarmes começaram a
gritar, lâmpadas acendiam e apagavam sem parar, quando o alarme parou de tocar
sozinho, tudo fica calmo novamente, até surgir som de passos vindos descendo da
escada, os passos eram acompanhados por
algum objeto batendo contra a madeira da escada, “Devia de ser o
tridente contra o chão”.
O medo tomou
conta de mim, os passos estavam mais pertos e eu estava sem controle de meu
corpo que estava todo mole no sofá, algo me impedia de conseguir levantar e
sair dali correndo, nesse momento sinto um hálito extremamente quente do meu
lado esquerdo do rosto, e sussurro não tão baixo e nada do que já ouvi antes é transmitido
como se fosse um grito pedindo ajuda.
Lembro-me de
então cair num profundo sono, naquele sono sonhei com o espirito da menininha
que era escravizada pelo demônio indígena, ela estava comigo na sala e sorria
pra mim, no sonho ela dizia que o meu gesto de bondade de livrar uma criança do
tridente do demônio fez expulsa-lo dali imediatamente e para sempre.
Ela me dizia
que o único segredo para eliminar o mal de vez daquela casa era o gesto mais
bondoso e sincero que algum ser humano vivo podia fazer, com os anos o mal
expulsava quem ali habitava, fazendo com que o egoísmo enganasse uns aos outros
de que aquele lugar era bom, fazendo o outro comprar ali e morar, alguns
morreram com o traiçoeiros jogos do demônio esses tiveram suas almas presas, e
por ali escravas do ser infernal.
De repente
todos aqueles rostos que eu via na parede quando tirei as fotos apareceram ao
lado da menina, ela me dizia que todos enfim estavam libertos do demônio indígena
e que eu teria paz naquela casa, que nada mais iria me infernizar.
A menina me
deu um beijo em minha bochecha e seguiu junto com as demais almas sumindo então
em uma luz, logo acordei no sofá da sala, tudo estava calmo, nenhum barulho,
nenhum hálito quente e um sonho que parecia mais real.
Na mesma
hora liguei novamente para o médium e expliquei o novo acontecimento, logo ao
adentrar na sala com a sua filha ele sorri e olha pra mim dizendo que eu estava
livre.
- Lembra do
que eu te disse meu jovem? Nem eu nem algum padre poderia fazer o que você podia
fazer sem grandes esforços, não precisa me contar mais nenhum detalhe meu
jovem, muitas vezes procuramos ajuda nos outros sem saber que essa mesma ajuda
está dentro de nós mesmos!
Sem dizer
mais nada e com um tom de ‘’não tenho mais o que fazer aqui’’ o médium sai
lentamente com a sua filha, desta vez senti uma certa leveza naquele homem que
da primeira vez saiu as pressas de minha casa como se fugisse de um incêndio.
Finalmente
todos aqueles fenômenos e toda a minha angustia sobre aquela casa acabaram,
tirei até algumas fotos novas por todos os lados ali para ter certeza, e para a
minha surpresa nada de anormal aparecia nelas, hoje carrego essa experiência como
um novo aprendizado em minha vida, demônios existem mas nem religião é capaz de
detê-los o que nos livra do mal é a bondade.