quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Livrai-me do Mal

Livrai-me do Mal.
A casa para a qual  acabara de me mudar me proporcionou uma certa solidão por morar sozinho, comprei uma casa grande demais só para mim, a cozinha era grande demais, e na sala havia uma escada em caracol que conduzia ao segundo andar.
Fui me acostumando com a solidão daquela imensa casa aos poucos, o mais estranho era não sentir essa sensação antes que pudesse fechar negócio de compra com o antigo morador, tudo de negativo foi acontecendo assim que me mudei.
Porém o estranho mesmo só estava começando, na primeira semana na minha casa nova o problema era em mim (o meu adaptar por ali) mas com o tempo o som sob o silêncio noturno daquela casa me causava um certo desconforto, o que eu considerava maior ainda aquela estranha sensação de negatividade assim que puis os pés ali para morar. Na noite seguinte fui acordado por uma menininha que aparentava ter 5 anos de idade, ela puxava as minhas cobertas e me sorria, logo correndo e sumindo, o que me fazia acreditar que estaria só sonhando.
Lembro-me da primeira manutenção ao chamar um eletricista após todas as lâmpadas da casa se queimarem todas de uma só vez, enquanto o homem no topo de uma escada de ferro verificava o problema da rede elétrica analisando a lâmpada da sala, fui verificar os peixes ali perto no aquário.
Já que para a manutenção era necessário desligar o padrão pude ver que tudo corria bem ainda com os peixes, antes que pudesse me virar de volta aonde eu estava, o aquário voltou a ‘’funcionar’’ mas espere, sem energia? Logo o eletricista cai no tapete da minha sala, duro e desacordado, havia fumaça saindo por todos os lados, o homem ainda respirava e chamei a ambulância 
Logo as lâmpadas da casa estavam todas acesas, havia algo de muito errado ali, eu não estava confuso mas aquela casa parecia querer me confundir, mas eu não ia deixar isso acontecer, foi quando gritei sozinho:
- Você quer me desafiar, casa? Pois tenha uma sorte muito maior pois eu agora faço questão de ficar aqui – Que bobeira, pensei depois desse grito. Poderia ser apenas um problema de eletricidade comum do qual o antigo dono não havia me contado.
Contudo problemas com lâmpadas não tive mais, mas os estranhos sons noturnos voltavam, e ainda mais frequentes e mais altos, portas dos outros quartos batiam mesmo com a casa toda fechada, o que me acordava assustado, sem falar nos passos das escadas o que me fazia dormir com a porta trancada todas as noites e a menininha que eu vi noites atrás aparecia também novamente em meu quarto, estava sentada no chão e chorando até subitamente sumir do nada.
Me mantive forte e tentava ignorar o que de mais estranho e misterioso estava vivendo na minha então atual fase da vida, de dia eu trabalhava e lidava com problemas das contas de uma grande empresa, mas o que realmente me motivava gostar cada vez mais de estar trabalhando, fazendo cálculos, tendo cobranças e rodeado de gente era a solidão, e minha grande casa só minha no calar de todas as noites, aonde eu deveria ter paz e silêncio.
Após começar a ver vultos o tempo todo para onde eu ia dentro daquela casa, cheguei ao meu limite e decidi vende-la, motivo? “Ah, eu sou sozinho e quero um apartamento ou uma casa menor” Usaria eu como argumento de uma venda futura, claro que o motivo era a casa estar me deixando literalmente louco.
O primeiro passo era começar a montar minha divulgação de venda pela internet, peguei minha câmera profissional e fotografei tudo, cada cômodo, partes externas, internas, enfim tudo foi alvo para um super detalhamento de um cara desesperado para vender uma casa mal assombrada.
Quando fui passar as fotos para o computador para que logo eu pudesse edita-las notei o que no momento em que eu fotografara lá não havia, em duas fotos da sala aparecia um braço não humano e nem animal, a mão desse braço segurava um tridente, sim aqueles ‘’garfos’’ gigantes simbolizados em que o diabo supostamente usa.
Na foto seguinte havia um corpo inteiro do qual pertencia o braço, o ser estava de costas, mas não tinha uma aparência do diabo do qual temos o costume de ver em ilustrações ou fantasias, não tinha uma cor especifica e era muito contorcido.
Nas demais fotos havia rostos sem corpos desfigurados presos nas paredes, na área externa da casa as fotos apareciam pessoas bem ao longe olhando para a câmera, sem falar na menininha que parecia me acenar para a foto, ela estava praticamente na minha frente de tão perto que na foto ela aprecia.
Ao terminar de ver todas as fotos, dei um susto que me fez empurrar a cadeira que eu estava sentado para trás, logo os alarmes da casa começaram a dispararem sozinhos, o que fez meu coração disparar ainda mais, desci escada abaixo correndo de medo, tropecei e fui rolando até não me lembrar de mais nada e acordar em um hospital.
-O que estou fazendo aqui? Como eu vim parar aqui? – Perguntava eu para a enfermeira.
Logo ela me contara que a ambulância recebeu a ligação de que eu precisava urgente pois havia sofrido uma queda do alto da escada, ela me falava que era uma voz de criança, uma menina, e me perguntava se era a minha filha, eu confuso, bobo e sem voz apenas acenei positivamente com a cabeça para a enfermeira.
Após algumas cirurgias, com alguns dias vem a alta do médico, braço esquerdo e parte da perna direita enfaixados, pego um táxi e volto pra casa, era estranho voltar, aquele lugar eu nem conseguia chamar de minha casa, até o hospital aonde estive por algumas semanas parecia ser mais tranquilo do que aquele lugar.
Com algumas dificuldades ainda para andar, tive uma  ideia de finalmente procurar algum médium, meu avô era espirita e conhecia alguns dos mais experientes e dedicados, enfim consegui por indicação do mesmo um que com prontidão após ouvir o meu depoimento por telefone logo chegou naquela casa aonde eu morava.
Ao abrir a porta havia um homem mais velho e ao seu lado uma moça mais nova, era filha do mesmo que sempre o acompanhava para auxilia-lo, logo que ele entrou na sala o homem se contorceu e ficou parado naquela posição por alguns segundos até voltar ao normal.
Logo com a ajuda de sua filha, o homem dizia existir uma presença ruim tão forte naquela casa que chegou a encosta-lo, quase o fazendo ter uma incorporação maligna, ele ficou tão bambo que logo assentou-se na poltrona mais próxima da janela.
O médium foi objetivo e logo me deu o diagnostico espiritual da casa, havia um espirito ao seu lado segundo ele, pedindo ajuda e contando tudo que precisava saber, ao fechar os olhos em um tom de concentração total o homem começou a falar.
“-Há séculos atrás havia uma tribo de índios onde hoje é essa casa, os índios seguiam uma seita onde ofertava diversos animais mortos ao lado de uma imensa imagem de madeira, era a imagem de um demônio sem doutrina, esse ser foi evocado das mais profundezas do inferno pelo índios, após a evocação, os índios tornaram-se canibais devorando uns aos outros até distinguir toda a tribo, sobrando apenas a imagem daquele demônio ali intacto por muitos e muitos anos, desde então a imagem foi se acabando pelo tempo, porém o lugar virou moradia do mal e quem ousar querer ali se abitar de uma forma ou de outra será expulso.”
Agora fazia sentido, eu estava lidando com forças muito piores do que eu pudesse imaginar, por isso o valor tão baixo pelo que comprei aquela casa, agora tudo fazia sentido, ou não...o médium me contara que aquela presença nas fotos o que segurava um tridente era o demônio (habitando em minha sala) os demais que apareciam, eram espíritos presos por aquele ser, ele os prendia porque aqueles mesmos espíritos eram antigos moradores de outras casas que antes já foram construídas ali, onde atualmente era a minha casa.
O médium dizia que o que tinha quer feito era eu sair dali o mais rápido possível pois aquele demônio não aceitava ninguém ali se habitando, eu corria um serio risco se permanecesse ali, era muito perigoso, eu continuar morando naquela casa era a maior provocação e desafio contra um ser sem doutrina, dizia o homem a mim.
- Nem mesmo um padre e nem mesmo eu pode expulsa-lo daqui para sempre, o que eu posso fazer é diminuir as forças do demônio que aqui se habita por alguns dias, ou talvez algumas horas, mas tenha certeza de que quando ele retomar suas forças, ele não virá com um humor nada bom, posso te dizer meu jovem que a minha presença aqui já o incomoda podendo trazer um risco ainda maior pra você aqui quando estiver sozinho – continuava o médium a me dizer.
Me senti completamente impotente diante da minha atual situação, com tantos problemas terrenos que a vida nesse mundo nos oferece, fui logo me meter com forças de outros mundos? O médium de certa forma me ajudou, mas ele sabia de seus limites, tratava-se de um ser sem doutrina cujo poucos padres, pastores ou médiuns podiam lidar.
Antes de fechar a porta e me despedir daquele médium ele sorriu pra mim deu de olhos ao meu lado e em seguida me olhou dizendo que apesar de ‘’alguém’’ contra a minha presença, ali havia uma garotinha amiga minha, ela morreu muito cedo quando morava com seus pais a anos atrás naquele mesmo lugar antes de ser aquela imensa casa atual, o homem então despediu-se e logo saiu apressado.
Lembrei-me da ligação de ajuda feita por uma menina quando cai da escada em que a enfermeira me contou, com muito cuidado subi as escadas e fui até o meu quarto olhar novamente as fotos que ficaram salvas no computador, a casa estava calma até então, nenhum rangido nenhuma porta batendo sozinha ou passos na escada.
Pude olhar com mais calma cada foto que tirei da casa, e tudo vinha a tona, o medo, a preocupação, meu Deus só de olhar aquele tridente em aparição na foto eu arrepiava até a espinha, nunca vi algo tão real assim, e o pior que sabia que não se tratava de montagem ou coisa parecida, tudo o que aquelas fotos mostravam era tudo que dentro da minha nova casa existia mas eu não enxergava.
Pensei comigo mesmo, se eu continuasse ali poderia morrer a qualquer momento e ficar preso sendo escravizado por aquele demônio, assim como todas as outras almas daquelas pessoas que já moraram por ali, inclusive a minha nova amiguinha, uma menininha que me apareceu sorrindo e chorando.
Por fim não pude postar aquelas fotos divulgando tudo o que aparecia nelas, senão jamais venderia a casa mas coloquei uma placa no portão lá fora anunciando a venda, dois dias depois um casal com uma menininha de aproximadamente 7 anos aparecem querendo olhar melhor a casa.
Juro que gelei, abri a casa para mostrar aos futuros moradores fiquei tenso com medo de que algum fenômeno comum ali vir a acontecer, estava finalmente quase me livrando daquele  pesadelo, porém estaria repassando aquele pesadelo para aquele casal e aquela inocente criança que acabara de gostar da casa querendo fechar negócio.
Ao ver a imagem daquela menininha filha do casal me olhando sorrindo  docemente, meu coração partiu-se em pedaços, lembrei-me do espirito amigo da menininha que me ajudou não sei como mas ligando para a ambulância quando mais precisei, “ela deve estar chorando por ai, decepcionada comigo” pensei comigo mesmo.
Eu queria muito me livrar daquela casa e essa era a minha tão sonhada chance, mas quando olhei a inocência daquela criança que seria a futura moradora e a futura escrava daquele demônio que ali vivia, por minha culpa?  Torci para que algum fenômeno acontecesse, “Qualquer coisa, qualquer coisa, vai, eu sei que você está aqui, faça o que você sempre faz quando estamos sozinhos, bata as portas, derrube as panelas, faça barulhos de passos na escada...” novamente pensava comigo mesmo.
Mas nada de anormal acontecia enquanto o casal aguardava da minha boca uma resposta positiva para a compra da casa, engoli um pouco de saliva e me senti contra a parede, era eu meu livrar de um grande pesadelo Vs Eu me sentir culpado pelo resto da vida por colocar uma criança inocente naquela situação horrorosa, mas o coração falou mais alto do que a razão.
- Vocês me desculpem, ma..mas a casa não está a venda, digo a casa não está mais a venda! É que eu decidi de última hora não querer vende-la mais, peço mil desculpas mas é que aqui é bom demais, então pra que eu querer vende-la? – Dizia eu dando leves empurrãozinhos aos ombros do casal os direcionando até a rua.
Sem chances de dizerem nada e surpresos o homem e a mulher vão caminhando aos poucos e se afastando, a menininha carregada pelo pai virou o rosto em minha direção e me sorriu, eu então sorri de volta e logo voltei pra dentro daquela casa, me senti leve como uma pluma de olhar aquele sorriso inocente se livrando de um demônio por minha causa.
Sentei-me no sofá da sala e um caos tomou conta de toda a casa novamente, “estava bom demais pra ser verdade”  alarmes começaram a gritar, lâmpadas acendiam e apagavam sem parar, quando o alarme parou de tocar sozinho, tudo fica calmo novamente, até surgir som de passos vindos descendo da escada, os passos eram acompanhados por  algum objeto batendo contra a madeira da escada, “Devia de ser o tridente contra o chão”.
O medo tomou conta de mim, os passos estavam mais pertos e eu estava sem controle de meu corpo que estava todo mole no sofá, algo me impedia de conseguir levantar e sair dali correndo, nesse momento sinto um hálito extremamente quente do meu lado esquerdo do rosto, e sussurro não tão baixo e nada do que já ouvi antes é transmitido como se fosse um grito pedindo ajuda.
Lembro-me de então cair num profundo sono, naquele sono sonhei com o espirito da menininha que era escravizada pelo demônio indígena, ela estava comigo na sala e sorria pra mim, no sonho ela dizia que o meu gesto de bondade de livrar uma criança do tridente do demônio fez expulsa-lo dali imediatamente e para sempre.
Ela me dizia que o único segredo para eliminar o mal de vez daquela casa era o gesto mais bondoso e sincero que algum ser humano vivo podia fazer, com os anos o mal expulsava quem ali habitava, fazendo com que o egoísmo enganasse uns aos outros de que aquele lugar era bom, fazendo o outro comprar ali e morar, alguns morreram com o traiçoeiros jogos do demônio esses tiveram suas almas presas, e por ali escravas do ser infernal.
De repente todos aqueles rostos que eu via na parede quando tirei as fotos apareceram ao lado da menina, ela me dizia que todos enfim estavam libertos do demônio indígena e que eu teria paz naquela casa, que nada mais iria me infernizar.
A menina me deu um beijo em minha bochecha e seguiu junto com as demais almas sumindo então em uma luz, logo acordei no sofá da sala, tudo estava calmo, nenhum barulho, nenhum hálito quente e um sonho que parecia mais real.
Na mesma hora liguei novamente para o médium e expliquei o novo acontecimento, logo ao adentrar na sala com a sua filha ele sorri e olha pra mim dizendo que eu estava livre.
- Lembra do que eu te disse meu jovem? Nem eu nem algum padre poderia fazer o que você podia fazer sem grandes esforços, não precisa me contar mais nenhum detalhe meu jovem, muitas vezes procuramos ajuda nos outros sem saber que essa mesma ajuda está dentro de nós mesmos!
Sem dizer mais nada e com um tom de ‘’não tenho mais o que fazer aqui’’ o médium sai lentamente com a sua filha, desta vez senti uma certa leveza naquele homem que da primeira vez saiu as pressas de minha casa como se fugisse de um incêndio.
Finalmente todos aqueles fenômenos e toda a minha angustia sobre aquela casa acabaram, tirei até algumas fotos novas por todos os lados ali para ter certeza, e para a minha surpresa nada de anormal aparecia nelas, hoje carrego essa experiência como um novo aprendizado em minha vida, demônios existem mas nem religião é capaz de detê-los o que nos livra do mal é a bondade.


FIM.



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