terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O GAROTO PROPAGANDA DO MAL.



Lembrei daquela manhã fria de Quarta-Feira, eu havia acabado de me levantar da cama por volta das 8:00 hrs, e assim que dei uma limpada no meu quarto desci até a cozinha para tomar o café da manhã.
Entre uma caixa de leite,iogurte, frutas e cereais fui preparando tudo que sempre gosto na primeira refeição do dia, aproveitei para ligar a TV para eu não sentir-me tão sozinha no silêncio matinal de minha casa.
Já quase terminando minha refeição observo com uma certa concentração uma propaganda que passava na Tv, um garoto loiro por volta de lá seus 13 anos de idade usando um grande sorriso sem parar, seus olhos claros pareciam imóveis e fixos para a câmera conforme você assistia o comercial tinha uma estranha sensação de estar sendo observado pelo garoto.
Tratava-se de uma propaganda de iogurte, porém a marca pra mim era desconhecida, talvez uma marca nova, pra falar a verdade o iogurte não me chamou nada a atenção, mas expressão facial daquele garoto propaganda me fazia assimilar como algo monstruoso, sabe? Coisas de outro mundo.
Bom, o comercial era assim: Era noite e aquele menino de seus mais ou menos 13 anos estava com insônia, então ele decidiu descer as escadas ir até a cozinha (tudo isso com uma lanterna na mão).
Me lembro que o garoto sorria o tempo todo, tipo assim, o tempo todo mesmo sabe? Continuando o comercial, após ele chegar na cozinha ele abre a geladeira e fica então aquele cenário de lugar escuro com uma única claridade, claro a da geladeira, que clareava todo o rosto do sorridente garoto e partes de seu corpo, nessa parte ele lembra que sua mãe disse que não era pra ele tomar iogurte pois ele não havia jantado direito.
Então após lembrar disso seu sorriso ia só aumentando, parecendo um sorriso diabólico mesmo, de quem está aprontando, como se desobedecer a mãe fosse um prêmio de coragem.
Nesse instante o garoto propaganda olha novamente pra câmera segurando dois potes de iogurtes, todo o cenário de cozinha permanecia escura, tendo somente o garoto em frente a geladeira com a luz da mesma.
Até aqui tudo bem, nada demais nada de tão estranho, vocês que estão lendo devem estar pensando que eu tenho probleminha, que devo ser uma débil-mental...Mas é agora que o mais estranho acontece...ou aconteceu.
Bom, voltando a propaganda, na parte do garoto na geladeira olhando pra câmera sorrindo com cara de tipo "nossa sou fodão, desobedeci mamãe" o comercial simplesmente congela, sim fiquei esperando por 10 minutos a TV voltar com sua programação normal enquanto eu ali na mesa tomava café.
Levantei-me e fui trocar de canal mas só tinha um probleminha, todos os canais que eu mudava nada acontecia, o garoto desobediente da mãe ainda estava na minha tela da televisão olhando para mim e sorrindo.
A primeira coisa que eu pensei foi que a Tv simplesmente havia pifado, fui para desligar no botão mas a propaganda ainda se mantinha congelada na tela, nem mesmo fazendo o mesmo usando o controle remoto adiantou.
Só via uma solução para me livrar daquela visão estranha, tirei então o fio da TV na tomada, mas estranhamente o comercial ainda estava congelado com aquele garoto ''lindo'', mas como aquilo ainda funcionava mesmo fora da tomada?
Na hora não liguei tanto assim pra aquilo, podia ainda assim ser um mero tipo de defeito, sei lá, fui arrumar a casa, tinha mais o que fazer, enquanto esfregava um pano no chão da sala ouvi então um barulho na cozinha de panelas caindo.
Fui correndo pra ver, as janelas e portas ainda estavam trancadas, nem se quer ventava, eu não tinha animais tipo gato que pula no alto e etc, se não foi nada disso então como várias panelas de vários lugares diferentes da cozinha caíram?
A base em que as panelas estavam apoiadas permaneciam firmes na parede, fui arrumar toda aquela bagunça, quando escuto um chiado de tv, olhei pra tv da cozinha e percebi que a imagem do garoto propaganda estava ficando diferente.
Seus olhos fixos para a câmera (ou para mim) estavam vermelhos, tipo com as pupilas mega vermelhas mesmo, o sorriso já estava acabando, sua expressão geral do rosto parecia de alguém que estava muito bravo, seu rosto pálido parecia estar se deformando feito nuvens no céu levadas pelo vento.
Ver aquilo já estava me deixando completamente amedrontada, primeiro panelas caem sozinhas, depois me deparo com um menino na propaganda estranha de iogurte se deformando em uma tv fora da tomada?
Rezei então em silêncio conforme ia arrumando a bagunça da cozinha, resolvi também ligar o radio da cozinha para ouvir programas religiosos católicos que minha mãe costuma escutar todos os dias.
No rádio um padre começava a falar coisas tipo, sobre maldições familiares, carmas de gerações e etc, após falar sobre tal tema o padre começou a fazer a oração de São Bento, antes mesmo que pudesse terminar a mesma, o rádio perdeu o sinal e começou a chiar, conforme eu ia tentando sintoniza-lo novamente notei que durante o chiamento havia um som de gritos, com choros.
Desisti e desliguei o rádio, olhei novamente para a tv e o garoto estava mais feio ainda, mais deformado, seu sorriso estava fechado, e pra piorar o meu medo, estava nascendo dois pequenos chifres em sua testa.
Não era possível aquilo estar acontecendo comigo sozinha em casa, não pensei duas vezes para me livrar daquilo, peguei um pedaço de madeira que encontrei na varanda e fui mirando no alvo que era a tela de televisão.
Quando por fim criei coragem e força nos braços, os olhos do garoto propaganda chifrudo se mexeram, suas vermelhas pupilas perderam o ponto fixo reto e quando achei que não podia piorar, ele estava olhando pra mim já que a tv estava mais baixa e eu em pé.
Saí correndo da cozinha, fui pra casa de uma vizinha, ela vendo o meu estado acabei tendo que contar tudo que estava acontecendo em casa, achei que ela ia debochar de mim, duvidar e tudo mais...porém ela ficou tão horrorizada quanto eu e pediu para que eu a levasse até a Tv onde tudo acontecia.
Chegando lá a aparência do garoto já era quase irreconhecível de tão deformado que seu rosto estava, mas era um tom de deformação real, não pelo fato da tv estar com defeito, sua expressão facial agora era de uma pessoa furiosa, não havia mais sorriso, seus chifres estavam maiores ainda, seus dentes cresciam, sua pele cheia de ferimentos.
Minha vizinha notou que a tv estava fora da tomada, estava pálida com o que acabara de ver, se cortasse sua pele talvez nem sangue sairia de tão pálida que ela ficou, me pediu então alguns segundos que já estava voltando, pedi para que ela não fosse pois eu já não tinha mais psicológico para tudo aquilo.
Esperei por ela no portão de minha casa, menos de um minuto ela volta com um pedaço de papel na mão, ela me pedia que voltássemos até a cozinha.
Quando chegamos lá, havia um cheiro pútrido por toda a cozinha, um líquido vermelho escorria de dentro da televisão, seria sangue? Mas diante de tantas coisas estranhas ali acontecendo isso seria só mais um fenômeno.
Minha vizinha e eu fomos até a sala onde ela abria o papel dobrado que estava em suas mãos, após olhar novamente o menino na minha tv, ela me mostra o que em suas mãos trazia, aparentemente parecia um recorte de jornal velho.
Quando olho para o pedaço de papel, vi então uma reportagem, a primeira foto era de um menino morto sem os olhos, sim o jornal havia na época fotografado e sem censuras mostrado cada foto, e sim o menino mesmo sem os olhos na foto era o mesmo garoto que aparecera no anuncio de iogurte na minha tv.
Minha vizinha dizia que há 23 anos atrás época daquela matéria de jornal, uma família havia acabado de perder todos os seus bens, toda a sua fortuna, uma família que dava seu sobrenome a marca do iogurte e derivados de leite em que produziam na época.
Após a fábrica falir eles se mudaram então para uma casa menor, ou seja, a casa aonde eu estava morando, a casa aonde uma tv funcionava sem energia elétrica e um rádio novo de boa sintonia que passando uma corrente de oração parava de funcionar.
Minha vizinha contava que aquela família após perder toda a fortuna que vinha da produção de seu famoso iogurte começou a agir de forma estranha.
Ela me contara que uma certa madrugada acordou com os membros da família desenhando um pentagrama no jardim com o menino (da tv) filho mais novo deles deitado no meio daquele desenho.
Segundo a minha vizinha ou ex-vizinha, a família acreditava que sua fábrica faliu por causa de uma maldição de seus antepassados e que se sacrificassem um de seus membros aquela maldição seria quebrada tendo então eles de volta toda a fortuna de antes.
Dizia então as testemunhas que viram o sacrifício que todos da família pareciam estar em transe, muitos vizinhos tentaram acudir o garoto que estava deitado na grama, mas mesmo chamando-os e gritando, todos pareciam não ouvir nem ver nada, apenas executaram o garoto arrancando então seus olhos há 23 anos atrás, bem ali na graminha em que eu gostava de plantar as minhas flores.
Após ler todo o recorte de jornal velho contando em detalhes o ocorrido com direito a endereço e tudo não pensei duas vezes, aquela casa estava com uma perturbadora presença, lembro-me de achar inúmeros pedaços de ossos toda vez em que ia plantar minhas flores, achava normal, que fosse apenas restos de animais mortos ali e pronto.
Mas agora tudo fazia sentido, o garoto em minha TV, tudo, não pensei duas vezes em mudar daquela casa, deixei no porão a tv que ainda trazia em sua tela a imagem do garoto.
Ao retirar alguns pertences meus das gavetas da cozinha (as quias já faziam parte da casa) encontrei alguns potes de iogurtes, claro, vencidos, notei que eram iogurtes super velhos, até reparar que era do mesmo iogurte em que o garoto na propaganda tomava, abri um para ver (curiosidade) e me arrependi, havia uns mil vermes ali dentro, fora aquele mesmo cheiro de podre que senti na cozinha.
Atualmente moro sozinha em um apartamento de um condomínio novo, onde ninguém morou aqui antes, nunca mais vivi esse tipo de fenômeno, e confesso que depois de ver aqueles potes velhos de iogurtes, ando substituindo por sucos naturais, minha antiga vizinha me disse que a minha pequena Tv da cozinha que deixei no porão da antiga casa finalmente desligou, porém também nunca mais voltou a funcionar, que descanse em paz!



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

NOITES INFERNAIS


NOITES INFERNAIS


''A única coisa tão inevitável quanto a morte é a vida.''
(Charles Chaplin)



''- Mamãe, mamãe... eu tive um pesadelo, posso dormir com você?
- Oh minha filha, claro que pode, mas já passou, você apenas sonhou, não precisa ter medo de algo que não passou da sua imaginação, agora vamos dormir!''

Que saudade dessa época, eu tinha apenas 10 anos de idade e minha mãe tinha razão era apenas fruto da minha imaginação aqueles sonhos ruins, mas os meus medos eram reais o que me impedia de lutar contra aqueles monstros de mentirinha.
Em 1988 mudamos minha mãe e eu pra nossa nova casa, papai havia acabado de comprar e quitar, porém morreu uma semana antes da nossa mudança, ele estava pintando o topo do segundo andar do lado de fora da casa quando a corda que o sustentava se rompeu, sua cabeça chocou-se com uma pedra logo abaixo, o que fez espalhar pedaços de seu cérebro longe.
A pericia não soube explicar ao certo o motivo do acidente já que todo o equipamento parecia estar em perfeito estado, mamãe passou a se vestir de preto em sinal de luto, confesso que ela mudou muito também o seu comportamento, estava ficando cada vez mais agressiva e sem paciência comigo, chorava pelos cantos e mal comia, ia emagrecendo muito.
As coisas na nossa nova casa eram um tanto bizarras, os antigos moradores deixaram para trás inúmeros quadros com o retrato do Charlie Chaplin, um grande humorista do cinema mudo, inclusive em meu quarto havia um na parede acima da cabeceira da minha cama.
A casa era de dois andares, e os quadros do finado artista ficavam espalhados por todos os cômodos, concentrado sua maior parte sobre a parede entre a escada, os corredores dos quartos e os próprios quartos, confesso que me incomodava um pouco, pois as obras pareciam um pouco macabras, o rosto de Charlie Chaplin parecia ser pintado de uma forma sombria.
Minha mãe estava cansada, passou a tomar seus comprimidos para dormir, a primeira noite na nova casa ficamos sem energia, e chovia muito forte lá fora, como acabamos de nos mudar, havia ainda caixas de papelão espalhados por todo o lado, no meu quarto havia alguns ainda lacrados.
Os homens que nos ajudaram na mudança apenas montaram minha mesinha de fazer lições de casa ou para leituras, tinha também a cadeira que eu sempre deixava de frente para essa mesa.
Havia uma vela acesa em cima daquela mesa já que faltava energia, o som dos trovões e os ''flashes'' dos relâmpagos me deixaram com medo, porém sabia que minha mãe não andava muito bem, estava sempre de mau humor, seria melhor não incomoda-la e ficar quieta em meu quarto.
Acabei adormecendo por algum tempo, mas fui pega com um susto de um estrondo alto de trovão, escorei um pouco na cabeceira da minha cama e reparei que a cadeira que eu havia deixado de frente a minha mesinha não estava mais em seu lugar, mas sim do lado da cabeceira de minha cama.
Lembro-me que não havia deixado ela ali, talvez minha mãe tenha perdido o sono e veio me ver e tenha ficado ali sentada me vendo dormir, pensava eu...
Não perguntei nada a ela, pois naquela manhã mamãe acordara ainda mais agressiva e sem paciência, estava nervosa com a bagunça toda que tinha para arrumar, eu perguntei se aqueles quadros permaneceriam lá, pois me assustavam, mas ela me deu uma má resposta:
- Está na hora de você dar um basta nessas suas loucuras, tudo te assusta, tudo te dá medo, tudo tem que perder o sono, já estou cansada desses seus mimos, e só porque te assusta os quadros vão ficar aonde estão, para você aprender a encarar os seus medos de frente! Agora trate de me ajudar.

Fiquei em silêncio, ela não era daquele jeito, muito pelo contrário, a morte do papai afetou muito ela, e eu pagava todos os dias com aquele comportamento cada dia pior, eu vivia um pesadelo, naquela nova casa, enorme e sombria, com aqueles quadros diabólicos e a amargura da minha mãe.
Na segunda noite eu me sentia muito cansada, havia ajudado mamãe com os móveis e a decoração, a energia funcionava normalmente, e eu assim que me deitei exausta logo apaguei de sono, mas novamente acordei no meio da madrugada, desta vez com meu próprio tombo, eu caí da cama e esbarrei em algo pontiagudo ou sei lá... e acabei machucando feio o meu braço esquerdo, eu sangrava muito e corri pro quarto de minha mãe que com muito custo acordara, ela pegou seu quite de primeiros socorros e me fez um curativo.
De poucas palavras ela me deixou até meu quarto e viu que novamente a cadeira estava ao lado da cabeceira da minha cama, e não perdeu a oportunidade de me dar uma bronca por ter me machucado por causa daquela cadeira ali fora do lugar.
Logo vi que não era ela então que a deixava ali o objeto ao lado da minha cama, comecei a sentir mais medo daquela casa, sem sono acendi a lâmpada do meu quarto e analisei melhor um dos quadros o qual estava na parede acima da minha cama, Charlie Chaplim estava ao lado de um cachorro, e olhava fixamente para quem olhava ali seu retrato.
Ouvi então passos na escada, como se alguém estivesse descendo , achando que fosse minha mãe resolvi ir até a cozinha pra beber um pouco de água mas estava tudo escuro, acendi as luminárias e prestei atenção em outro quadro que ficava no centro da parede da escada, desta vez era Charlie Chaplim descendo uma escada.
Fui até a cozinha mas não havia ninguém ali, ao terminar de beber um copo d'água uma faca caiu ao chão sozinha, saí dali correndo, mas preferi evitar contar pra mamãe.
Na terceira noite as coisas pareciam piorar, acordei sob uma poça de sangue sobre meus lençóis, a minha ferida no braço parecia doer mais, parecia piorar, e a cadeira que mais cedo me certifiquei de deixar no lugar novamente estava ao lado da minha cama.
Após ir ao hospital e fazer um novo curativo a enfermeira me perguntou se minha mãe estava bem, pois ela achava aquela minha ferida no braço muito parecida com um corte feito por uma faca.
Com aquilo na cabeça decidi na próxima noite trancar a porta e até janelas, foi o que fiz, sei que minha mãe não estava bem mas jamais acreditava que ela faria algum mal a mim, antes de dormir certifiquei-me novamente de que a cadeira estava de frente a mesinha.
Acordei as 3:00 da madrugada com um barulho estranho em meu quarto, eu que cobria até a cabeça levantei-me lentamente para averiguar de que barulho seria aquele, peguei minha lanterna e vi a cadeira no meio do caminho entre a minha cama e a mesinha, cobri todo o meu rosto novamente e tentei ganhar fôlego, era a pior situação de medo já vivida desde então por mim.
Em um ato de ''coragem'' retirei novamente as cobertas de meu rosto e liguei novamente a lanterna, a porta e as janelas estavam intactas, e a cadeira não estava mais no meio do caminho e nem de frente a mesinha, senti então um ar quente sobre o meu pescoço, e ali do lado da minha cama estava a cadeira, olhei lentamente e com a lanterna projetei a luz, e na cadeira havia um homem sentado.
Era um homem muito alto que vestia um terno muito parecido com a do Charlie Chaplim em seus quadros, em sua mão esquerda segurava uma bengala e na outra uma faca, congelada com o que estava vendo velando o meu sono todas as noites, clareei a luz sobre seu rosto.
O homem usava uma cartola, seu bigode era grande e curvado, sua pele pálida e sua boca toda costurada, ele me olhava com maldade, pegou então sua faca e cortou o costurado de sua boca, após fazer isso vomitou pura terra seca.
Saí dali correndo em direção ao quarto de minha mãe, aquilo não era mais pesadelo, a porta do quarto dela estava trancada, gritei e bati na porta inúmeras vezes mas lembrei que seus remédios para dormir eram bastante fortes, fiquei ali parada sentada ao chão por alguns instantes.
Mas o tempo de paz foi curto, logo a minha cadeira fora arremessada contra a parede do corredor, a força de como o objeto foi jogado era tão forte que pouco se sobrou dele.
Houve alguns segundos de silêncio até eu ouvir passos fortes sobre o assoalho, as pilhas da lanterna que eu utilizava estavam ficando fracas, fazendo que eu enxergasse pouco do que ali surgisse, os passos ficavam cada vez mais próximos de mim, e novamente comecei a ver a sombra negra daquela figura alta, usando terno e chapéu escuro, uma mão apoiando sobre uma bengala , a outra segurando uma imensa faca de cozinha.
Quando aquele ser quase pôde me tocar, a porta do quarto de minha mãe abriu, ela me pôs pra dentro rapidamente e trancou a porta, do lado de dentro da porta havia uma imensa cruz desenhada com algo vermelho, similar a sangue, mas não quis questionar se fato era aquilo mesmo.
Ela dizia para eu não me preocupar mais, pois ele não podia entrar ali, e que estávamos protegidas, de início aquele homem começou a rosnar, gritar, e até bater na porta quase arrancando-a, seus passos fortes se distanciaram com o barulho de sua bengala no assoalho, ouvia-se no quarto ao lado objetos de decoração e móveis sendo lançadas pelas paredes e ao chão.
Algo muito forte parecido com um vento forte passou pelo corredor devastando todos os objetos presentes, não parecia mais algo humano derrubando tudo que ali havia, foi a pior noite de nossas vidas, ninguém nos avisara sobre o passado daquela casa, perdemos a paz desde que nos mudamos pra lá.
Logo o silêncio pairou novamente sobre toda a casa, passamos horas minha mãe e eu acordadas esperando o amanhecer, eu acabei cochilando um pouco e acordando já com a luz do dia.
Mamãe tomava seu banho de banheira matinal o que era sagrado, pensei em escovar os dentes, o box da banheira estava aberta e foi inevitável não ver aquela água que minha mãe tomava banho cheia de sangue.
Ela estava sentada na banheira se ensaboando, estava de costas para mim, vi suas costas cheia de feridas, algumas tão profundas que dava para ver sua carne quase exposta pra fora, ela chorava em silêncio, até eu derrubar uma saboneteira sem querer e ela me pegar de surpresa a observando.
A principio mamãe ficou agressiva, dizia que não era para eu estar ali naquele momento, fiquei esperando ela na cama até que se vestisse, mais calma ela me contou que aquele ser a visitava todas a noites, ameaçando me machucar implorou para que a matasse aos poucos se necessário, mas que jamais me machucasse.
Tudo ficou claro, aquele homem, aquele ser, pegava a minha cadeira e velava meus sonos bem ali do meu lado, em uma noite que mamãe estava revoltada e se encheu de comprimidos ele resolveu não só visitar o meu quarto mas me machucar com a sua faca, me derrubando em seguida da cama para que mamãe pensasse que fosse só um acidente.
Abrimos a porta do quarto bem devagar e nos deparamos com diversos objetos e móveis caídos sobre o chão, a única coisa que estava intacta ali eram os quadros em seus devidos lugares Charlie Chaplim em seus diversos retratos e poses, e um cabideiro, do qual estava pendurado um terno com suas mangas estendidas e um chapéu em seu topo o que nos assustara,
Abandonamos a casa no mesmo dia, com móveis quebrados e tudo, fomos morar na fazenda da minha avó, mãe de minha mãe, depois nunca mais vimos aquele homem infernal, alguns anos mais tarde pesquisei na internet mais sobre aquela casa, a imprensa divulgava uma história trágica de uma mãe e um filho que sofria de esquizofrenia, ele era obcecado por Charlie Chaplim, todos os dias assistia seus filmes mudo, comprara todas as cópias de seus retratos...
Comprara também roupas e chapéus similares aos do artista, porém o rapaz era muito agressivo também, e gritava muito durante as madrugadas, o que fez sua mãe cansar daquela situação e envenenar seu chá em uma manhã, livrando-se daquele filho problemático.
Após poucos goles de chá o homem caí sobre o chão desacordado,derrubando talheres e facas, sua mãe havia arquitetado tudo muito antes de por em prática aquele homicídio, a cova no quintal estava aberta em um canto cheio de arbustos, o arrastando até lá sozinha.
Em seguida para evitar que o rapaz não esteja morto de vez, a mulher encheu a boca de seu filho com terra em seguida costurando-a, ao se levantar para finalizar seu macabro plano o rapaz abriu os olhos retirando de sua cintura uma faca, das quais caíram consigo ao chão da cozinha, uma facada na perna antes da perfuração fatal que matou sua mãe, em seguida morreu ao lado da mãe banhada em sangue.
Segundo várias pesquisas de vários sites diferentes essa é a história do passado daquela casa, minha mãe acha que a morte do papai tem a ver com tudo aquilo que aconteceu de sobrenatural na casa, não conseguimos vende-la, dizem que vândalos e andarilhos a invadiram, resta saber se o espirito daquele homem ainda se habita por lá, com seu terno, seu chapéu, sua bengala, seu rosto pálido com seu bigode curvado, e sua faca em uma das mãos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A APARIÇÃO DA MULA SEM CABEÇA

Me lembro quando eu era mais jovem e morava na fazenda, Eu, meu pai e minha mãe voltávamos da procissão da igreja, era Sexta-Feira da paixão, e era a noite, a igreja por vez ficava na cidade que era pequena, mas dava pra voltar a pé até a fazenda.

Pelo caminho de terra por entre plantações diversas e mato permanecíamos caminhando em silêncio até que o mesmo é interrompido por um relincho seguido por gemidos nada humanos.

Meu pai parou de caminhar na hora segurando o braço de minha mãe para fazer o mesmo que em seguida também parei, eu fiquei bastante assustado, pois nunca tinha ouvido uma espécie de grito daquela forma, não parecia ser desse mundo.

Eu não conseguia entender o porque de tanto espanto de meus pais, mas novamente o relincho seguido por gemido logo se escutava, porém com mais intensidade, parecia estar mais perto de nós.

A estrada era escura e naquela noite meus pais usaram lanternas para clarear o caminho, pois seguia uma promessa de não dirigir na data cristã.

De repente uma luz estranha aparece por entre as plantações sobre a beira da estrada, meu pai sussurra por silêncio, a luz estava parada por entre o milharal, algumas plantas secas chegaram a pegar fogo naquele momento.

A luz aproximava de nós e em seu clarão de fogo dava pra ver um corpo de uma mula, seus pelos eram negros feito carvão, no lugar de sua cabeça havia fogo, sua brasa era avermelhada feito sangue, e ela ficou lá parada por alguns minutos de frente para nossa direção, meus pais haviam desligado suas lanternas.

A mula sem cabeça deu novamente mais um relincho alto e apavorante e por fim sumindo entre o mato, meus pais e eu seguimos nosso caminho em passos rápidos, até chegar a fazenda.

Chegando em casa, todos foram dormir, mas eu fui ler um livro até pegar no sono, quando me assusto com o barulho forte da porteira lá fora que estava trancada batendo, fui até a janela da sala pra ver melhor, mas nada havia lá.

Ao voltar pro meu quarto decido dormir, e já apago a luz, quando olho pela janela que era de vidro, vejo uma mulher toda vestida de branco parada lá fora e olhando pra dentro. Meu pai dizia que a mula sem cabeça transformava também naquela mulher para assombrar as pessoas e os animais.

Naquela noite dormi no quarto dos meus pais, mas depois de tal experiência ainda morando na fazenda, até escutava porteiras batendo sozinhas e passos de cavalos rondando a casa a noite, mas sempre nas quaresmas, porém nunca mais vi a mula sem cabeça, nem em seu formato animal nem em forma de mulher.







quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Livrai-me do Mal

Livrai-me do Mal.
A casa para a qual  acabara de me mudar me proporcionou uma certa solidão por morar sozinho, comprei uma casa grande demais só para mim, a cozinha era grande demais, e na sala havia uma escada em caracol que conduzia ao segundo andar.
Fui me acostumando com a solidão daquela imensa casa aos poucos, o mais estranho era não sentir essa sensação antes que pudesse fechar negócio de compra com o antigo morador, tudo de negativo foi acontecendo assim que me mudei.
Porém o estranho mesmo só estava começando, na primeira semana na minha casa nova o problema era em mim (o meu adaptar por ali) mas com o tempo o som sob o silêncio noturno daquela casa me causava um certo desconforto, o que eu considerava maior ainda aquela estranha sensação de negatividade assim que puis os pés ali para morar. Na noite seguinte fui acordado por uma menininha que aparentava ter 5 anos de idade, ela puxava as minhas cobertas e me sorria, logo correndo e sumindo, o que me fazia acreditar que estaria só sonhando.
Lembro-me da primeira manutenção ao chamar um eletricista após todas as lâmpadas da casa se queimarem todas de uma só vez, enquanto o homem no topo de uma escada de ferro verificava o problema da rede elétrica analisando a lâmpada da sala, fui verificar os peixes ali perto no aquário.
Já que para a manutenção era necessário desligar o padrão pude ver que tudo corria bem ainda com os peixes, antes que pudesse me virar de volta aonde eu estava, o aquário voltou a ‘’funcionar’’ mas espere, sem energia? Logo o eletricista cai no tapete da minha sala, duro e desacordado, havia fumaça saindo por todos os lados, o homem ainda respirava e chamei a ambulância 
Logo as lâmpadas da casa estavam todas acesas, havia algo de muito errado ali, eu não estava confuso mas aquela casa parecia querer me confundir, mas eu não ia deixar isso acontecer, foi quando gritei sozinho:
- Você quer me desafiar, casa? Pois tenha uma sorte muito maior pois eu agora faço questão de ficar aqui – Que bobeira, pensei depois desse grito. Poderia ser apenas um problema de eletricidade comum do qual o antigo dono não havia me contado.
Contudo problemas com lâmpadas não tive mais, mas os estranhos sons noturnos voltavam, e ainda mais frequentes e mais altos, portas dos outros quartos batiam mesmo com a casa toda fechada, o que me acordava assustado, sem falar nos passos das escadas o que me fazia dormir com a porta trancada todas as noites e a menininha que eu vi noites atrás aparecia também novamente em meu quarto, estava sentada no chão e chorando até subitamente sumir do nada.
Me mantive forte e tentava ignorar o que de mais estranho e misterioso estava vivendo na minha então atual fase da vida, de dia eu trabalhava e lidava com problemas das contas de uma grande empresa, mas o que realmente me motivava gostar cada vez mais de estar trabalhando, fazendo cálculos, tendo cobranças e rodeado de gente era a solidão, e minha grande casa só minha no calar de todas as noites, aonde eu deveria ter paz e silêncio.
Após começar a ver vultos o tempo todo para onde eu ia dentro daquela casa, cheguei ao meu limite e decidi vende-la, motivo? “Ah, eu sou sozinho e quero um apartamento ou uma casa menor” Usaria eu como argumento de uma venda futura, claro que o motivo era a casa estar me deixando literalmente louco.
O primeiro passo era começar a montar minha divulgação de venda pela internet, peguei minha câmera profissional e fotografei tudo, cada cômodo, partes externas, internas, enfim tudo foi alvo para um super detalhamento de um cara desesperado para vender uma casa mal assombrada.
Quando fui passar as fotos para o computador para que logo eu pudesse edita-las notei o que no momento em que eu fotografara lá não havia, em duas fotos da sala aparecia um braço não humano e nem animal, a mão desse braço segurava um tridente, sim aqueles ‘’garfos’’ gigantes simbolizados em que o diabo supostamente usa.
Na foto seguinte havia um corpo inteiro do qual pertencia o braço, o ser estava de costas, mas não tinha uma aparência do diabo do qual temos o costume de ver em ilustrações ou fantasias, não tinha uma cor especifica e era muito contorcido.
Nas demais fotos havia rostos sem corpos desfigurados presos nas paredes, na área externa da casa as fotos apareciam pessoas bem ao longe olhando para a câmera, sem falar na menininha que parecia me acenar para a foto, ela estava praticamente na minha frente de tão perto que na foto ela aprecia.
Ao terminar de ver todas as fotos, dei um susto que me fez empurrar a cadeira que eu estava sentado para trás, logo os alarmes da casa começaram a dispararem sozinhos, o que fez meu coração disparar ainda mais, desci escada abaixo correndo de medo, tropecei e fui rolando até não me lembrar de mais nada e acordar em um hospital.
-O que estou fazendo aqui? Como eu vim parar aqui? – Perguntava eu para a enfermeira.
Logo ela me contara que a ambulância recebeu a ligação de que eu precisava urgente pois havia sofrido uma queda do alto da escada, ela me falava que era uma voz de criança, uma menina, e me perguntava se era a minha filha, eu confuso, bobo e sem voz apenas acenei positivamente com a cabeça para a enfermeira.
Após algumas cirurgias, com alguns dias vem a alta do médico, braço esquerdo e parte da perna direita enfaixados, pego um táxi e volto pra casa, era estranho voltar, aquele lugar eu nem conseguia chamar de minha casa, até o hospital aonde estive por algumas semanas parecia ser mais tranquilo do que aquele lugar.
Com algumas dificuldades ainda para andar, tive uma  ideia de finalmente procurar algum médium, meu avô era espirita e conhecia alguns dos mais experientes e dedicados, enfim consegui por indicação do mesmo um que com prontidão após ouvir o meu depoimento por telefone logo chegou naquela casa aonde eu morava.
Ao abrir a porta havia um homem mais velho e ao seu lado uma moça mais nova, era filha do mesmo que sempre o acompanhava para auxilia-lo, logo que ele entrou na sala o homem se contorceu e ficou parado naquela posição por alguns segundos até voltar ao normal.
Logo com a ajuda de sua filha, o homem dizia existir uma presença ruim tão forte naquela casa que chegou a encosta-lo, quase o fazendo ter uma incorporação maligna, ele ficou tão bambo que logo assentou-se na poltrona mais próxima da janela.
O médium foi objetivo e logo me deu o diagnostico espiritual da casa, havia um espirito ao seu lado segundo ele, pedindo ajuda e contando tudo que precisava saber, ao fechar os olhos em um tom de concentração total o homem começou a falar.
“-Há séculos atrás havia uma tribo de índios onde hoje é essa casa, os índios seguiam uma seita onde ofertava diversos animais mortos ao lado de uma imensa imagem de madeira, era a imagem de um demônio sem doutrina, esse ser foi evocado das mais profundezas do inferno pelo índios, após a evocação, os índios tornaram-se canibais devorando uns aos outros até distinguir toda a tribo, sobrando apenas a imagem daquele demônio ali intacto por muitos e muitos anos, desde então a imagem foi se acabando pelo tempo, porém o lugar virou moradia do mal e quem ousar querer ali se abitar de uma forma ou de outra será expulso.”
Agora fazia sentido, eu estava lidando com forças muito piores do que eu pudesse imaginar, por isso o valor tão baixo pelo que comprei aquela casa, agora tudo fazia sentido, ou não...o médium me contara que aquela presença nas fotos o que segurava um tridente era o demônio (habitando em minha sala) os demais que apareciam, eram espíritos presos por aquele ser, ele os prendia porque aqueles mesmos espíritos eram antigos moradores de outras casas que antes já foram construídas ali, onde atualmente era a minha casa.
O médium dizia que o que tinha quer feito era eu sair dali o mais rápido possível pois aquele demônio não aceitava ninguém ali se habitando, eu corria um serio risco se permanecesse ali, era muito perigoso, eu continuar morando naquela casa era a maior provocação e desafio contra um ser sem doutrina, dizia o homem a mim.
- Nem mesmo um padre e nem mesmo eu pode expulsa-lo daqui para sempre, o que eu posso fazer é diminuir as forças do demônio que aqui se habita por alguns dias, ou talvez algumas horas, mas tenha certeza de que quando ele retomar suas forças, ele não virá com um humor nada bom, posso te dizer meu jovem que a minha presença aqui já o incomoda podendo trazer um risco ainda maior pra você aqui quando estiver sozinho – continuava o médium a me dizer.
Me senti completamente impotente diante da minha atual situação, com tantos problemas terrenos que a vida nesse mundo nos oferece, fui logo me meter com forças de outros mundos? O médium de certa forma me ajudou, mas ele sabia de seus limites, tratava-se de um ser sem doutrina cujo poucos padres, pastores ou médiuns podiam lidar.
Antes de fechar a porta e me despedir daquele médium ele sorriu pra mim deu de olhos ao meu lado e em seguida me olhou dizendo que apesar de ‘’alguém’’ contra a minha presença, ali havia uma garotinha amiga minha, ela morreu muito cedo quando morava com seus pais a anos atrás naquele mesmo lugar antes de ser aquela imensa casa atual, o homem então despediu-se e logo saiu apressado.
Lembrei-me da ligação de ajuda feita por uma menina quando cai da escada em que a enfermeira me contou, com muito cuidado subi as escadas e fui até o meu quarto olhar novamente as fotos que ficaram salvas no computador, a casa estava calma até então, nenhum rangido nenhuma porta batendo sozinha ou passos na escada.
Pude olhar com mais calma cada foto que tirei da casa, e tudo vinha a tona, o medo, a preocupação, meu Deus só de olhar aquele tridente em aparição na foto eu arrepiava até a espinha, nunca vi algo tão real assim, e o pior que sabia que não se tratava de montagem ou coisa parecida, tudo o que aquelas fotos mostravam era tudo que dentro da minha nova casa existia mas eu não enxergava.
Pensei comigo mesmo, se eu continuasse ali poderia morrer a qualquer momento e ficar preso sendo escravizado por aquele demônio, assim como todas as outras almas daquelas pessoas que já moraram por ali, inclusive a minha nova amiguinha, uma menininha que me apareceu sorrindo e chorando.
Por fim não pude postar aquelas fotos divulgando tudo o que aparecia nelas, senão jamais venderia a casa mas coloquei uma placa no portão lá fora anunciando a venda, dois dias depois um casal com uma menininha de aproximadamente 7 anos aparecem querendo olhar melhor a casa.
Juro que gelei, abri a casa para mostrar aos futuros moradores fiquei tenso com medo de que algum fenômeno comum ali vir a acontecer, estava finalmente quase me livrando daquele  pesadelo, porém estaria repassando aquele pesadelo para aquele casal e aquela inocente criança que acabara de gostar da casa querendo fechar negócio.
Ao ver a imagem daquela menininha filha do casal me olhando sorrindo  docemente, meu coração partiu-se em pedaços, lembrei-me do espirito amigo da menininha que me ajudou não sei como mas ligando para a ambulância quando mais precisei, “ela deve estar chorando por ai, decepcionada comigo” pensei comigo mesmo.
Eu queria muito me livrar daquela casa e essa era a minha tão sonhada chance, mas quando olhei a inocência daquela criança que seria a futura moradora e a futura escrava daquele demônio que ali vivia, por minha culpa?  Torci para que algum fenômeno acontecesse, “Qualquer coisa, qualquer coisa, vai, eu sei que você está aqui, faça o que você sempre faz quando estamos sozinhos, bata as portas, derrube as panelas, faça barulhos de passos na escada...” novamente pensava comigo mesmo.
Mas nada de anormal acontecia enquanto o casal aguardava da minha boca uma resposta positiva para a compra da casa, engoli um pouco de saliva e me senti contra a parede, era eu meu livrar de um grande pesadelo Vs Eu me sentir culpado pelo resto da vida por colocar uma criança inocente naquela situação horrorosa, mas o coração falou mais alto do que a razão.
- Vocês me desculpem, ma..mas a casa não está a venda, digo a casa não está mais a venda! É que eu decidi de última hora não querer vende-la mais, peço mil desculpas mas é que aqui é bom demais, então pra que eu querer vende-la? – Dizia eu dando leves empurrãozinhos aos ombros do casal os direcionando até a rua.
Sem chances de dizerem nada e surpresos o homem e a mulher vão caminhando aos poucos e se afastando, a menininha carregada pelo pai virou o rosto em minha direção e me sorriu, eu então sorri de volta e logo voltei pra dentro daquela casa, me senti leve como uma pluma de olhar aquele sorriso inocente se livrando de um demônio por minha causa.
Sentei-me no sofá da sala e um caos tomou conta de toda a casa novamente, “estava bom demais pra ser verdade”  alarmes começaram a gritar, lâmpadas acendiam e apagavam sem parar, quando o alarme parou de tocar sozinho, tudo fica calmo novamente, até surgir som de passos vindos descendo da escada, os passos eram acompanhados por  algum objeto batendo contra a madeira da escada, “Devia de ser o tridente contra o chão”.
O medo tomou conta de mim, os passos estavam mais pertos e eu estava sem controle de meu corpo que estava todo mole no sofá, algo me impedia de conseguir levantar e sair dali correndo, nesse momento sinto um hálito extremamente quente do meu lado esquerdo do rosto, e sussurro não tão baixo e nada do que já ouvi antes é transmitido como se fosse um grito pedindo ajuda.
Lembro-me de então cair num profundo sono, naquele sono sonhei com o espirito da menininha que era escravizada pelo demônio indígena, ela estava comigo na sala e sorria pra mim, no sonho ela dizia que o meu gesto de bondade de livrar uma criança do tridente do demônio fez expulsa-lo dali imediatamente e para sempre.
Ela me dizia que o único segredo para eliminar o mal de vez daquela casa era o gesto mais bondoso e sincero que algum ser humano vivo podia fazer, com os anos o mal expulsava quem ali habitava, fazendo com que o egoísmo enganasse uns aos outros de que aquele lugar era bom, fazendo o outro comprar ali e morar, alguns morreram com o traiçoeiros jogos do demônio esses tiveram suas almas presas, e por ali escravas do ser infernal.
De repente todos aqueles rostos que eu via na parede quando tirei as fotos apareceram ao lado da menina, ela me dizia que todos enfim estavam libertos do demônio indígena e que eu teria paz naquela casa, que nada mais iria me infernizar.
A menina me deu um beijo em minha bochecha e seguiu junto com as demais almas sumindo então em uma luz, logo acordei no sofá da sala, tudo estava calmo, nenhum barulho, nenhum hálito quente e um sonho que parecia mais real.
Na mesma hora liguei novamente para o médium e expliquei o novo acontecimento, logo ao adentrar na sala com a sua filha ele sorri e olha pra mim dizendo que eu estava livre.
- Lembra do que eu te disse meu jovem? Nem eu nem algum padre poderia fazer o que você podia fazer sem grandes esforços, não precisa me contar mais nenhum detalhe meu jovem, muitas vezes procuramos ajuda nos outros sem saber que essa mesma ajuda está dentro de nós mesmos!
Sem dizer mais nada e com um tom de ‘’não tenho mais o que fazer aqui’’ o médium sai lentamente com a sua filha, desta vez senti uma certa leveza naquele homem que da primeira vez saiu as pressas de minha casa como se fugisse de um incêndio.
Finalmente todos aqueles fenômenos e toda a minha angustia sobre aquela casa acabaram, tirei até algumas fotos novas por todos os lados ali para ter certeza, e para a minha surpresa nada de anormal aparecia nelas, hoje carrego essa experiência como um novo aprendizado em minha vida, demônios existem mas nem religião é capaz de detê-los o que nos livra do mal é a bondade.


FIM.



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O Nego D'água

Quando mais jovem eu morava no estado de Goiás numa pequena cidade,meu primo,eu e alguns amigos pegávamos nossas bicicletas e "explorávamos" fazendas da região, em nossas férias escolares então só aparecia em casa para almoçar e voltávamos somente quando escurecia.

Por entre fazendas confesso que cometemos pequenos crimes de moleque em roubar milho entre outros frutos em pomares, mas numa tarde das nossas aventuras meu primo nos revela um lugar onde viviam seres estranhos.

- E ai estão afim de conhecer um lugar? Que tal o pequeno riacho que fica daqui uns 15 minutos? Aquelas águas abrigam o nego d'água...

- Er...acho que é melhor não, eu não sei nadar direito e além do mais logo já começa escurecer (exclamei)

Naquele momento todos riram da minha cara e debocharam que eu estava com medo, de fato senti medo mesmo, afinal de tudo o que pouco acredito sobre criaturas sobrenaturais esse ser das águas é um.

Porém, todos jovens não queria depois ser o taxado como covarde, medroso...aceleramos em nossas bicicletas até chegar ao local, era um lindo riacho cercado por muitas árvores e plantas.

Meu primo nos contava que uma vez naquele mesmo riacho naquelas mesmas proximidades um casal atravessava num pequeno barco de madeira junto com o bebê deles recém nascido.

A criança estava sobre o colo da mãe que estava sentada próximo a ponta do barco e sendo amamentada enquanto o rapaz remava até o outro lado que dava acesso a uma outra fazenda a qual o casal iria.

Em uma distração do rapaz a mulher viu uma mão saindo debaixo da água mais exatamente debaixo do barco, a mão não era humana com 3  dedos com unhas grandes e bastante afiadas...

E então a mão ficou lá parada para o espanto da mulher que sussurrava para o seu marido que estava de costas remando, ao lado dele um facão para cortar a vegetação do caminho, ela olhava o facão sem se mover segurando seu bebê com força.

Ela tornava a sussurrar mais alto "Pegue o facão e corte...Pegue o facão e corte...." repetia a mulher até que por fim o homem deu um leve movimento olhando por entre o ombro esquerdo logo atrás aquela mão que estava longe de ser humana ou até mesmo um animal conhecido.

Ele voltou seu olhar pra frente como se nada tivesse visto e disse em tom de voz baixa "Afaste-se um pouco, no momento certo..." De repente o bebê parou de mamar e começou a chorar, chorava bem alto como se sentisse o perigo lhe ameaçando.

Quando a criança começou o choro a mão começou a se movimentar subindo junto a um estranho braço todo torto e enrugado que subia sobre o barco cada vez mais apressado, em um movimento ligeiro e brusco o homem pega o facão cortando a mão que separou daquele anti braço enrugado na hora.

O braço voltou pras profundezas do riacho na hora, a mão que ficou caída dentro do barco ainda movimentava os dedos com aquelas unhas que mais estavam para garras.

Meu primo após nos contar essa história que segundo ele é real e acontecera a anos, jura que aquele riacho é um dos lugares que mais ficaram isolados naquela região pois os antigos fazendeiros que ali moravam,mudaram-se após perder muitos de seus animais, mortos pelo nego d'água que saía do riacho a noite e andava pelos pastos.

Realmente só estava nós ali no cenário da suposta macabra história verídica.

- Bom! Agora que viemos e ouvimos uma história e tanto, acho que está na hora  de pedalarmos rumo pra casa, daqui uma hora começa escurecer e temos que atravessar trilhas sobre pastos e...

Quando falava isso na esperança de sair de perto daquelas águas o mais rápido possível antes mesmo que ficasse escuro pra piorar, ouço um som de algo caindo na água, era dois de nossos 4 amigos pulando e brincando no meio do riacho.

Meu primo até alertou eles que de dentro da água chamava pra juntar no banho de riacho, e pra piorar ainda debochavam rindo:

- E ai será que o nego d'água vai nos pegar? (dizia um e ria)

-Espero que ele não tenha perdido a outra mão, senão como ele vai nos matar? (dizia o outro em tom de ironia)

Ficamos sem reação, até que um deles que estavam na água fazendo graça decide se afastar ainda mais de nós e nadando mais perto do meio do riacho.

Nesse momento ele começa a gritar chamando atenção do outro que nadava mais longe, achamos que era mais uma brincadeira de mau gosto, mas logo vimos que ele afundou como se algo o puxasse para dentro do riacho.

O outro amigo nosso saiu as pressas da água enquanto começamos a gritar pedindo socorro, logo uma caminhonete vem da estrada de terra até aonde estávamos.

-Pelo o amor de Deus que diabos estão vocês fazendo ai moleques? Não sabem que já morreu gente nesse local morto pelo nego d'água?

Era um homem de aparência simples usando um chapéu de couro em tom branco e manchado pelo desgaste, após o "puxão de orelha" do estranho ouvimos algo parecido com latidos de cachorro "Ou...ou...ou" repetia, mas não era latidos de cachorro, era um som que eu jamais tinha ouvido antes.

- Céus, vamos embora daqui, é o nego d'água, esse som é dele. (disse o homem)

Contamos sobre o nosso amigo na água para o homem mas ele apenas lamentou, dizia que uma vez que fosse pego por aquela criatura não tinha mais volta, seu corpo apareceu boiando na água repleta de sangue, quando resgataram o corpo, fomos impedidos pela polícia nossa permanência lá, mas vimos que faltava um olho, o rosto dele havia sinais de pequenos trituramentos, um dos pés segurado apenas por um tendão com sua carne e ossos expostos, eu levei muito tempo para voltar a dormir a noite após ver aquela cena.

No dia do enterro do nosso amigo, meu primo era o que mais estava abatido, se sentia culpado por aquela morte pelo fato de ter nos levado até lá achando que tudo não passava de uma lenda rural.

- Eu só queria assustar vocês, tinha as minhas dúvidas sobre o nego d'água, eu devia ter ouvido você quando disse para não irmos...

Me dizia, após sairmos do cemitério no final da tarde seguinte, olhamos para trás aquele tumulo "vazio" tampado com terra pura, uma simples cruz de madeira pintada de branco em sua cabeceira e uma pequena coroa de flores roxa envolvendo o topo da cruz, a partir desse dia meu primo nunca mais quis saber de locais dos quais tivessem lagos, córregos, riachos e etc...

















terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Sala 22 - (Última Parte)

Alice estava preocupada comigo após o diretor sair do banheiro, próximo ao local onde falávamos assuntos sobre a chacina e mistérios que envolvia o mesmo.

Certa noite uma menina voltou pra nossa sala de aula chorando, ninguém entendeu, mas ela pegou seus materiais aos prantos dizendo que não voltava mais, ela disse que quando foi no banheiro todas as lâmpadas queimaram e todas as portas dos sanitários bateram sozinhas.

A escola ficava cada vez mais vazia a noite, propus a Alice por em prática o plano de descobrir o que tem por trás da porta trancada da sala 22, Alice insistia para que eu desistisse da ideia, mas foi em vão.

Alice e eu fugimos da aula do professor Nuno e corremos pra diretoria eu queria conversar com o diretor a respeito dos estranhos fenômenos na escola a noite, porém minha ida até lá rendeu bem mais do que isso.

Não havia ninguém na sala da diretoria, a porta estava aberta na mesa havia um casaco preto largado, fui até o bolso do casaco enquanto Alice se espantava pedindo pra não mexer em nada, com medo de sermos pegos, lá encontro uma chave com um durex branco anotado o numeral '22'.

- Bingo! Alice essa é a chave da sala 22, e é hoje mesmo que eu descubro o que esse diretor tanto esconde!

Alice e eu decidimos pegar nossos materiais na sala de aula enquanto houvesse troca de professores, e assim fizemos e nos escondemos no banheiro masculino, o plano era esperar todos irem embora e com nossas lanternas no celular abrir a porta da sala 22 sem que pudéssemos correr riscos de sermos pegos, após isso o plano de sair de lá era pular o muro.

Tudo parecia dar certo, até que escutamos passos entrando no banheiro, Alice e eu fomos pra última cabine e fechei bem a porta, dava pra ver pela parede de separação, o sanitário ao lado aquele par de sapatos negros novamente ali em pé, era o diretor bem ao nosso lado, fiz um gesto para Alice que diminuísse sua respiração e subisse no vaso para que o diretor não percebesse a nossa presença.

Logo aqueles passos fortes saem do banheiro e some ao lado de fora, passadas poucas horas as luzes da escola são todas apagadas, estávamos nós dois num silêncio total e também em total escuridão.

Naquele silêncio ouvimos mais gritos agudos vindo das salas e também do ginásio, Alice estava bastante assustada e arrependida de ter ficado no colégio comigo, porém consegui acalma-la.

Pegamos nossas lanternas do celular e fomos subindo as escadas, cruzando o corredor e por fim estávamos na porta da sala 22, respiramos fundo, mas não em tom de alívio mas sim num tom do tipo "Pronto,estamos preparados para ver o que tem ai dentro".

Quando enfim destranquei a porta, uma única lâmpada da sala em frente se acende sozinha, tentamos não ligar muito, poderia ser uma dessas lâmpadas que vivem piscando, ligando e acendendo...

Ao girar a maçaneta da misteriosa sala 22 logo entrei em seguida Alice se encoraja de fazer o mesmo, havia ali um cheiro de enxofre com formol, logo acendi as lâmpadas, o chão ali realmente estava repleto de manchas de sangue já escurecido pelo tempo, havia tais manchas também nas paredes.

O lugar estava repleto de velas de todas as cores também, havia velas negras, brancas, vermelhas...
Inclusive algumas acesas quase terminando de derreter, e por fim vejo aquele esqueleto, uma caveira bastante alta com seus ossos amarelados, seu crânio era gigante.

- É ela, essa é a caveira que foi usada nas aulas de Ciências aqui na escola, a mando do diretor...

- Alice...essa é a caveira do Nick! -Completei.

A caveira estava pendurada por uma espécie de barra de ferro parafusada na parede próximo ao quadro negro que estava escrito com giz branco a seguinte mensagem: "Aqui selamos as nossas mortes, aqui perdemos as nossas posses e aqui morremos fortes"

Havia também na sala 22, uma espécie de varal feito com barbante, e nele diversas fotos das vítimas mortas na chacina, havia uma foto pendurada com arame onde mostrava diversos corpos em sacos plásticos enfileirados no chão do ginásio da escola, outras fotos de mais mortos na chacina e por fim algumas fotos de uma criança, magra e cabeçuda, depois a criança adolescente e por fim aparecia Nick na última fase, quando matou e morreu.

Um imenso congelador ocupava por fim o fundo da sala, nos aproximamos e ficamos horrorizados quando vimos o corpo do ex-diretor lá congelado, aquele que espalhou informações detalhadas a respeito do diretor usar a caveira do autor da chacina na escola ha 25 anos atrás.

- Ai meu Deus, foi ele, foi o diretor quem matou ele, vamos embora, vamos embora daqui agora, vamos pular o muro dessa escola pra nunca mais voltar - Dizia Alice desesperada.

Eu por fim concordei com o novo plano de dar o fora dali logo, mas quando viramos pra sair, uma imensa treva cobre a sala, e quando tentamos correr as luzes se acendem, na porta estava o diretor, como sempre todo de preto.

Naquele momento os gritos agudos voltaram com tudo novamente, vinha dos corredores do pavilhão ao lado, do refeitório e do ginásio de esportes, as luzes da escola inteira começaram a acender e apagar sozinhas constantemente.

- Eu sempre venho aqui visitar essa sala nesse horário todos os dias, quando todos vão embora, e hoje quando senti a falta da chave previ de que teria visita, aliás, visitas! - disse o diretor seriamente e friamente.

- Olha, diretor, nós, nós... -Dizia Alice tentando buscar argumentos.

O diretor começou a sorrir, pela primeira vez vi aquele homem rígido de cara feia sempre, soltar um sorriso, mas aquilo não me parecia nada legal.

O diretor nos revelou que Nick era seu filho, mas ninguém nunca soube, cansado de ver o filho sofrer chacotas dos colegas e humilhações no banheiro do tipo molhar ele, ou desenharem um boneco com um cabeção nas paredes, ele decidiu então entregar uma arma de fogo para o garoto.

- Tome filho, leve essa arma e mate todos os seus colegas que te desenharam na parede, ou aqueles que apenas ri mesmo de você - relembrou o diretor pra nós ao que dissera ao Nick no dia da chacina.

- Você é um doente, você matou adolescentes de uma sala inteira, você matou seu próprio filho, você matou o ex-diretor - Gritava Alice

- E agora vou matar vocês dois - Disse o diretor tirando uma arma de seu paletó apontando então a arma para o nosso rumo.


Enquanto estávamos Alice e eu sob a mira da arma do diretor, ouvimos mais gritos e choros enquanto ele dizia que se o ex-diretor não tivesse entrado na sala 22 assim como nós, ele não teria o matado, revelou também que foi ele mesmo quem desenterrou a caveira de Nick no cemitério a noite, e que fez da escola o altar para o filho justo na sala em que a tragédia aconteceu anos atrás.

- Papai venha, venha comigo - uma voz sem corpo dizia.

O diretor emocionado perguntava se era Nick que estava ali, enquanto ele apontava a arma para qualquer lugar.De repente a voz some e novamente gritos agudos são escutados de longe dentre a escola.

- Vocês estão ouvindo? - dizia o diretor rindo em tom maléfico e continuava - Ouça os gritos, ha 25 anos esse colégio a noite é dominado pelos gritos, são eles, os mortos na chacina, e tem mais, eles estão por toda parte, assombram vocês nos banheiros, no ginásio e nos corredores, queimam as lâmpadas, batem as portas, são exatamente 25 anos esses malditos assombrando alunos e professores a noite...

Enquanto os gritos não calavam o diretor com seus olhos arregalados em nós aponta novamente a arma, jurava que seria o meu fim, e o pior sentimento de culpa por ter colocado Alice nessa.

Os gritos agudos vindo de todos os lados pareciam incomodar o diretor que ficava cada vez com uma expressão mais doentia, até que a imagem daquele homem de negro apontando uma arma para o meu rumo é interrompida por uma escuridão total.

Os gritos se calaram naquela hora, e um silêncio macabro dominava todo o colégio, Alice que segurava a minha mão logo a soltou quando senti seu desespero de aproveitar o escuro para tentar correr dali, senti Alice correndo e se afastando quando o silêncio é interrompido por um tiro.

Eu não senti tiro algum me atingindo, gritei por Alice, tentava procurar rastejando pelo chão o que aconteceu com ela, quando de repente as lâmpadas se acendem, vi Alice agachada no chão protegendo seu corpo com seus braços, ela estava assustada, mas estava bem, olhei pro quadro negro onde a mensagem escrita a giz branco "Aqui selamos as nossas mortes, aqui perdemos as nossas posses e aqui morremos fortes"
Estava com o branco do giz todo manchado de sangue.

O diretor estava caído ao chão, morto com um tiro na boca, e novamente a sala 22 é banhada a muito sangue, o sangue do diretor derramava feito cascata empoçando todo o chão.

Logo chamamos a polícia e explicamos o ocorrido, a perícia fez seu trabalho, merendeiras, professores, e alguns alunos e ex-alunos deram depoimentos a respeito do comportamento do diretor, Alice e eu não tivemos problemas com a justiça, "apenas" problemas psicológicos mesmo.

Mudamos para um outro colégio, até então a escola da macabra sala 22 passou a não realizar mais as atividades a noite, devido aos gritos e os fenômenos que continuavam a acontecer, a sala 22 permanece isolada, mas ouvi dizer que o novo diretor pretende demolir aquela parte da escola que foi batizada como a parte amaldiçoada.

FIM.

TRILHA SONORA:















segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Sala 22 (Parte I)

Quando eu estava no segundo colegial tive que estudar a noite já que trabalha durante o dia todo, o colégio era público estadual, as salas eram bastante vazias, os corredores repleto de lâmpadas queimadas ou piscando quase a queimar.

Achei estranho uma escola daquele tamanho ter pouquíssimos estudantes a noite, parecia até sombrio aquele lugar, foi então que fiz amizade com uma garota que estudava na mesma sala que a minha, era a Alice, perguntei pra ela o porque de tão poucos alunos e tantos professores constantemente doentes.

- Ah! Você não sabe né? - disse Alice com uma expressão de quem iria fazer alguma revelação e que isso não seria muito fácil. Balancei a cabeça negativamente e ela continuou dizendo.

- Pois é, olha o que vou te contar aqui que fique entre a gente viu? Os professores e diretores sempre abafam esse assunto para evitar certos desconfortos.

Antes mesmo que Alice pudesse terminar, ou melhor, começar a me dizer o que acontecia naquele colégio, uma lâmpada acima de nós fez um estranho barulho de eletricidade começando a piscar, então afastamos pro outro lado da sala, quando ela continuou a falar pouco baixo enquanto o professor escrevia uma expressão numérica no quadro negro.

-Bom, isso já é um sinal de que estamos sendo observados o tempo inteiro.

-Mas observados por quem? 

- Bom, você sabe que essa escola é muito antiga, pois é, ha exatamente 25 anos atrás um rapaz chamado Nick sofria Bullying por ele ser muito alto, bastante magro e tinha uma cabeça grande para o corpo esquelético, certo dia ele entrou na sala 22 que era a dele, armado, atirando em todos que ele via pela frente, matando quem o tratava com chacota e até inocentes daquela situação, saiu no jornal na época, dizem que a sala virou uma piscina de sangue e que até hoje a sala 22 é trancada porque as manchas de sangue no chão e nas paredes não saíram totalmente, desde então a sala foi proibida pelo diretor desde aquele dia a ser usada, Nick suicidou-se em seguida, aqui na escola mesmo, dizem que ele pegou uma corda e amarrou em seu pescoço se matando no ginásio. E sobre ser observado, coisas estranhas sempre acontece aqui a noite, tipo como se os espíritos dos mortos na chacina aqui tivessem presentes.

A história que Alice me contava realmente era surpreendente, naquela mesma noite quando cheguei em casa decidi pesquisar na internet e encontrei a notícia daquela chacina, havia fotos coloridas e em preto e branco, nas fotos mostravam diversos corpos juntos banhados com sangue, e em seguida fotos da remoção dos corpos em plásticos pretos, sendo retirados da sala 22, passando entre os corredores e o portão principal. E havia fotos até de Nick, morto pendurado em uma corda.

Realmente a história do passado do colégio que eu estudava já a 5 anos me deixou muito surpreso e assustado, eu sempre achei o diretor estranho, sempre vestido de preto, sério e bastante rígido e mau humorado, sempre deixava claro aos novatos que era proibido passar na porta da sala 22 sem contar o motivo.

As conversas com Alice sobre esse assunto começou a render,tanto que ela me dizia que o diretor é o mesmo desde aquela época por motivos desconhecidos,talvez seja sempre o melhor que só deixa o cargo morto, uma suposta lenda diz  que o corpo de Nick ficou um bom tempo no laboratório sendo conservado em um enorme refrigerador já que a família de Nick não foi encontrada e que a documentação dele era falsificada.

Segundo a lenda da escola também, o corpo dele foi enterrado, porém sua caveira foi retirada, recolada e totalmente desinfectada, dizem que a caveira de Nick foi usada como a "caveira de estudos" das aulas de ciências, sim por um bom tempo seu esqueleto estava presente nas salas de aula como estudos sem que professores e alunos soubessem, apenas o diretor, até que tal informação foi vazada pelo ex diretor que desapareceu misteriosamente a 11 meses atrás. A partir de então todos perceberam que o famoso esqueleto foi substituído do laboratório por outro, e o antigo fora guardado na sala 22. E o ex diretor nem a polícia mais o encontrou.

- Alice você acha mesmo que seja apenas lenda tudo isso? Digo, fora a chacina que foi notícia nacional, o esqueleto, a fama de ouvir gritos nos corredores a noite, as lâmpadas sempre queimando,o desaparecimento misterioso do ex-diretor que supostamente espalhou a notícia sobre o diretor principal usar o esqueleto de Nick nas aulas, o que você acha de tudo isso?

- Eu acho que vocês dois estão de muito tititi e atrapalhando a minha aula - disse o professor de história furioso com a minha conversa com Alice e disparou - Estão convidados a tomar um ar lá fora você e a dona Alice.

Puxa, fomos expulsos da aula,  pedi desculpas para Alice por ter interrompido a atenção dela a aula

-Tudo bem, a aula do professor Nuno estava chata mesmo, vem vamos sentar no refeitório - disse Alice

Fomos até ao refeitório sentamos no banco, ficamos de frente um pro outro sob a longa mesa de refeições e Alice enfim pôde responder a minha pergunta.

- Sabe, eu sei que essa informação toda é verdade, não é apenas lenda, tem alguma coisa estranha no diretor.

Por fim disparei:

- Eu também acho, o diretor sempre foi mesmo muito estranho, sempre de preto, sempre rígido e sempre frio! E quer saber Alice? Eu vou desafia-lo, eu vou dar um jeito de entrar na sala 22, e vou descobrir porque o diretor não reformou a sala e sim preferiu tranca-la esses anos todos, somente ele tendo acesso, sem falar que essa história do sumiço do ex-diretor está muito estranha.

Alice me aconselhou a largar tal curiosidade, enquanto ela falava ouvimos um forte grito com um som agudo vindo do ginásio de esportes, ficamos calados, do refeitório conseguimos ver que o ginásio estava trancado e todo escuro.

Resolvi ir então até ao banheiro que também ficava próximo do refeitório, após usar fui até a pia de onde havia um espelho, enquanto lavava as mãos vi pelo reflexo do espelho dois pés com sapatos negros por baixo da porta de um sanitário, de repente a porta se abre e o diretor sai, ele vai até a pia próxima de mim e faz o mesmo, pelo espelho ele me olha com aquele olhar frio, mas ao mesmo tempo um olhar ameaçador e sai.

Ao voltar pro refeitório pergunto se Alice viu o diretor passando indo ao banheiro, ela negou e confirmou que viu apenas ele saindo do banheiro passando pelo refeitório e dando sermão na mesma por estar fora da aula, e seguiu seu caminho, isso era um péssimo sinal pois estávamos muito próximos do banheiro conversando um assunto que a pessoa que menos podia ouvir, supostamente podia estar ouvindo tudo de dentro do banheiro masculino.

A dúvida pairou sobre nossas cabeças como uma nuvem negra que ameaça chuva e vai se espalhando.

- Tomara que ele não tenha escutado nada sobre essa conversa, esse homem fica mais estranho a cada ano, e torce pra ele não ter ouvido principalmente quando você tocou no assunto do desaparecimento misterioso do ex-diretor, afinal quem garante que Nick foi o único assassino da história deste colégio? - Dizia Alice.


CONTINUA...

Trilha sonora dessa História: