segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

NOITES INFERNAIS


NOITES INFERNAIS


''A única coisa tão inevitável quanto a morte é a vida.''
(Charles Chaplin)



''- Mamãe, mamãe... eu tive um pesadelo, posso dormir com você?
- Oh minha filha, claro que pode, mas já passou, você apenas sonhou, não precisa ter medo de algo que não passou da sua imaginação, agora vamos dormir!''

Que saudade dessa época, eu tinha apenas 10 anos de idade e minha mãe tinha razão era apenas fruto da minha imaginação aqueles sonhos ruins, mas os meus medos eram reais o que me impedia de lutar contra aqueles monstros de mentirinha.
Em 1988 mudamos minha mãe e eu pra nossa nova casa, papai havia acabado de comprar e quitar, porém morreu uma semana antes da nossa mudança, ele estava pintando o topo do segundo andar do lado de fora da casa quando a corda que o sustentava se rompeu, sua cabeça chocou-se com uma pedra logo abaixo, o que fez espalhar pedaços de seu cérebro longe.
A pericia não soube explicar ao certo o motivo do acidente já que todo o equipamento parecia estar em perfeito estado, mamãe passou a se vestir de preto em sinal de luto, confesso que ela mudou muito também o seu comportamento, estava ficando cada vez mais agressiva e sem paciência comigo, chorava pelos cantos e mal comia, ia emagrecendo muito.
As coisas na nossa nova casa eram um tanto bizarras, os antigos moradores deixaram para trás inúmeros quadros com o retrato do Charlie Chaplin, um grande humorista do cinema mudo, inclusive em meu quarto havia um na parede acima da cabeceira da minha cama.
A casa era de dois andares, e os quadros do finado artista ficavam espalhados por todos os cômodos, concentrado sua maior parte sobre a parede entre a escada, os corredores dos quartos e os próprios quartos, confesso que me incomodava um pouco, pois as obras pareciam um pouco macabras, o rosto de Charlie Chaplin parecia ser pintado de uma forma sombria.
Minha mãe estava cansada, passou a tomar seus comprimidos para dormir, a primeira noite na nova casa ficamos sem energia, e chovia muito forte lá fora, como acabamos de nos mudar, havia ainda caixas de papelão espalhados por todo o lado, no meu quarto havia alguns ainda lacrados.
Os homens que nos ajudaram na mudança apenas montaram minha mesinha de fazer lições de casa ou para leituras, tinha também a cadeira que eu sempre deixava de frente para essa mesa.
Havia uma vela acesa em cima daquela mesa já que faltava energia, o som dos trovões e os ''flashes'' dos relâmpagos me deixaram com medo, porém sabia que minha mãe não andava muito bem, estava sempre de mau humor, seria melhor não incomoda-la e ficar quieta em meu quarto.
Acabei adormecendo por algum tempo, mas fui pega com um susto de um estrondo alto de trovão, escorei um pouco na cabeceira da minha cama e reparei que a cadeira que eu havia deixado de frente a minha mesinha não estava mais em seu lugar, mas sim do lado da cabeceira de minha cama.
Lembro-me que não havia deixado ela ali, talvez minha mãe tenha perdido o sono e veio me ver e tenha ficado ali sentada me vendo dormir, pensava eu...
Não perguntei nada a ela, pois naquela manhã mamãe acordara ainda mais agressiva e sem paciência, estava nervosa com a bagunça toda que tinha para arrumar, eu perguntei se aqueles quadros permaneceriam lá, pois me assustavam, mas ela me deu uma má resposta:
- Está na hora de você dar um basta nessas suas loucuras, tudo te assusta, tudo te dá medo, tudo tem que perder o sono, já estou cansada desses seus mimos, e só porque te assusta os quadros vão ficar aonde estão, para você aprender a encarar os seus medos de frente! Agora trate de me ajudar.

Fiquei em silêncio, ela não era daquele jeito, muito pelo contrário, a morte do papai afetou muito ela, e eu pagava todos os dias com aquele comportamento cada dia pior, eu vivia um pesadelo, naquela nova casa, enorme e sombria, com aqueles quadros diabólicos e a amargura da minha mãe.
Na segunda noite eu me sentia muito cansada, havia ajudado mamãe com os móveis e a decoração, a energia funcionava normalmente, e eu assim que me deitei exausta logo apaguei de sono, mas novamente acordei no meio da madrugada, desta vez com meu próprio tombo, eu caí da cama e esbarrei em algo pontiagudo ou sei lá... e acabei machucando feio o meu braço esquerdo, eu sangrava muito e corri pro quarto de minha mãe que com muito custo acordara, ela pegou seu quite de primeiros socorros e me fez um curativo.
De poucas palavras ela me deixou até meu quarto e viu que novamente a cadeira estava ao lado da cabeceira da minha cama, e não perdeu a oportunidade de me dar uma bronca por ter me machucado por causa daquela cadeira ali fora do lugar.
Logo vi que não era ela então que a deixava ali o objeto ao lado da minha cama, comecei a sentir mais medo daquela casa, sem sono acendi a lâmpada do meu quarto e analisei melhor um dos quadros o qual estava na parede acima da minha cama, Charlie Chaplim estava ao lado de um cachorro, e olhava fixamente para quem olhava ali seu retrato.
Ouvi então passos na escada, como se alguém estivesse descendo , achando que fosse minha mãe resolvi ir até a cozinha pra beber um pouco de água mas estava tudo escuro, acendi as luminárias e prestei atenção em outro quadro que ficava no centro da parede da escada, desta vez era Charlie Chaplim descendo uma escada.
Fui até a cozinha mas não havia ninguém ali, ao terminar de beber um copo d'água uma faca caiu ao chão sozinha, saí dali correndo, mas preferi evitar contar pra mamãe.
Na terceira noite as coisas pareciam piorar, acordei sob uma poça de sangue sobre meus lençóis, a minha ferida no braço parecia doer mais, parecia piorar, e a cadeira que mais cedo me certifiquei de deixar no lugar novamente estava ao lado da minha cama.
Após ir ao hospital e fazer um novo curativo a enfermeira me perguntou se minha mãe estava bem, pois ela achava aquela minha ferida no braço muito parecida com um corte feito por uma faca.
Com aquilo na cabeça decidi na próxima noite trancar a porta e até janelas, foi o que fiz, sei que minha mãe não estava bem mas jamais acreditava que ela faria algum mal a mim, antes de dormir certifiquei-me novamente de que a cadeira estava de frente a mesinha.
Acordei as 3:00 da madrugada com um barulho estranho em meu quarto, eu que cobria até a cabeça levantei-me lentamente para averiguar de que barulho seria aquele, peguei minha lanterna e vi a cadeira no meio do caminho entre a minha cama e a mesinha, cobri todo o meu rosto novamente e tentei ganhar fôlego, era a pior situação de medo já vivida desde então por mim.
Em um ato de ''coragem'' retirei novamente as cobertas de meu rosto e liguei novamente a lanterna, a porta e as janelas estavam intactas, e a cadeira não estava mais no meio do caminho e nem de frente a mesinha, senti então um ar quente sobre o meu pescoço, e ali do lado da minha cama estava a cadeira, olhei lentamente e com a lanterna projetei a luz, e na cadeira havia um homem sentado.
Era um homem muito alto que vestia um terno muito parecido com a do Charlie Chaplim em seus quadros, em sua mão esquerda segurava uma bengala e na outra uma faca, congelada com o que estava vendo velando o meu sono todas as noites, clareei a luz sobre seu rosto.
O homem usava uma cartola, seu bigode era grande e curvado, sua pele pálida e sua boca toda costurada, ele me olhava com maldade, pegou então sua faca e cortou o costurado de sua boca, após fazer isso vomitou pura terra seca.
Saí dali correndo em direção ao quarto de minha mãe, aquilo não era mais pesadelo, a porta do quarto dela estava trancada, gritei e bati na porta inúmeras vezes mas lembrei que seus remédios para dormir eram bastante fortes, fiquei ali parada sentada ao chão por alguns instantes.
Mas o tempo de paz foi curto, logo a minha cadeira fora arremessada contra a parede do corredor, a força de como o objeto foi jogado era tão forte que pouco se sobrou dele.
Houve alguns segundos de silêncio até eu ouvir passos fortes sobre o assoalho, as pilhas da lanterna que eu utilizava estavam ficando fracas, fazendo que eu enxergasse pouco do que ali surgisse, os passos ficavam cada vez mais próximos de mim, e novamente comecei a ver a sombra negra daquela figura alta, usando terno e chapéu escuro, uma mão apoiando sobre uma bengala , a outra segurando uma imensa faca de cozinha.
Quando aquele ser quase pôde me tocar, a porta do quarto de minha mãe abriu, ela me pôs pra dentro rapidamente e trancou a porta, do lado de dentro da porta havia uma imensa cruz desenhada com algo vermelho, similar a sangue, mas não quis questionar se fato era aquilo mesmo.
Ela dizia para eu não me preocupar mais, pois ele não podia entrar ali, e que estávamos protegidas, de início aquele homem começou a rosnar, gritar, e até bater na porta quase arrancando-a, seus passos fortes se distanciaram com o barulho de sua bengala no assoalho, ouvia-se no quarto ao lado objetos de decoração e móveis sendo lançadas pelas paredes e ao chão.
Algo muito forte parecido com um vento forte passou pelo corredor devastando todos os objetos presentes, não parecia mais algo humano derrubando tudo que ali havia, foi a pior noite de nossas vidas, ninguém nos avisara sobre o passado daquela casa, perdemos a paz desde que nos mudamos pra lá.
Logo o silêncio pairou novamente sobre toda a casa, passamos horas minha mãe e eu acordadas esperando o amanhecer, eu acabei cochilando um pouco e acordando já com a luz do dia.
Mamãe tomava seu banho de banheira matinal o que era sagrado, pensei em escovar os dentes, o box da banheira estava aberta e foi inevitável não ver aquela água que minha mãe tomava banho cheia de sangue.
Ela estava sentada na banheira se ensaboando, estava de costas para mim, vi suas costas cheia de feridas, algumas tão profundas que dava para ver sua carne quase exposta pra fora, ela chorava em silêncio, até eu derrubar uma saboneteira sem querer e ela me pegar de surpresa a observando.
A principio mamãe ficou agressiva, dizia que não era para eu estar ali naquele momento, fiquei esperando ela na cama até que se vestisse, mais calma ela me contou que aquele ser a visitava todas a noites, ameaçando me machucar implorou para que a matasse aos poucos se necessário, mas que jamais me machucasse.
Tudo ficou claro, aquele homem, aquele ser, pegava a minha cadeira e velava meus sonos bem ali do meu lado, em uma noite que mamãe estava revoltada e se encheu de comprimidos ele resolveu não só visitar o meu quarto mas me machucar com a sua faca, me derrubando em seguida da cama para que mamãe pensasse que fosse só um acidente.
Abrimos a porta do quarto bem devagar e nos deparamos com diversos objetos e móveis caídos sobre o chão, a única coisa que estava intacta ali eram os quadros em seus devidos lugares Charlie Chaplim em seus diversos retratos e poses, e um cabideiro, do qual estava pendurado um terno com suas mangas estendidas e um chapéu em seu topo o que nos assustara,
Abandonamos a casa no mesmo dia, com móveis quebrados e tudo, fomos morar na fazenda da minha avó, mãe de minha mãe, depois nunca mais vimos aquele homem infernal, alguns anos mais tarde pesquisei na internet mais sobre aquela casa, a imprensa divulgava uma história trágica de uma mãe e um filho que sofria de esquizofrenia, ele era obcecado por Charlie Chaplim, todos os dias assistia seus filmes mudo, comprara todas as cópias de seus retratos...
Comprara também roupas e chapéus similares aos do artista, porém o rapaz era muito agressivo também, e gritava muito durante as madrugadas, o que fez sua mãe cansar daquela situação e envenenar seu chá em uma manhã, livrando-se daquele filho problemático.
Após poucos goles de chá o homem caí sobre o chão desacordado,derrubando talheres e facas, sua mãe havia arquitetado tudo muito antes de por em prática aquele homicídio, a cova no quintal estava aberta em um canto cheio de arbustos, o arrastando até lá sozinha.
Em seguida para evitar que o rapaz não esteja morto de vez, a mulher encheu a boca de seu filho com terra em seguida costurando-a, ao se levantar para finalizar seu macabro plano o rapaz abriu os olhos retirando de sua cintura uma faca, das quais caíram consigo ao chão da cozinha, uma facada na perna antes da perfuração fatal que matou sua mãe, em seguida morreu ao lado da mãe banhada em sangue.
Segundo várias pesquisas de vários sites diferentes essa é a história do passado daquela casa, minha mãe acha que a morte do papai tem a ver com tudo aquilo que aconteceu de sobrenatural na casa, não conseguimos vende-la, dizem que vândalos e andarilhos a invadiram, resta saber se o espirito daquele homem ainda se habita por lá, com seu terno, seu chapéu, sua bengala, seu rosto pálido com seu bigode curvado, e sua faca em uma das mãos.

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