quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O Orfanato

Há 2 anos atrás nesta mesma época eu passei em um concurso público que sempre sonhei, era pra trabalhar em um orfanato, eu sempre fui apaixonada por crianças, e morava com meus pais, era solteira, não tinha nada a perder.

Sabia que teria dormir lá toda semana ao menos 3 vezes até que arrumassem novas funcionárias, até que chegou o dia, ou melhor a minha primeira noite que eu seria responsável pelo orfanato, quando cheguei com uma mochila com algumas roupas minhas, parei para olhar o cenário por fora, do portão até a porta da instituição havia um longo caminho de terra, e ao redor imensas árvores velhas, algumas totalmente secas, e um casarão imenso no meio. Fui caminhando sozinha até tocar uma campainha, uma senhora que já estava indo embora me recebeu e me explicou tudo.

Apesar de terem poucas crianças, mais ou menos 14 meninas e 12 meninos a casa era enorme, havia dois andares, e um corredor longo e estreito que dava acesso aos quartos, do lado direito meninos e esquerdo meninas.

Não era bem iluminado e sobrava muitos quartos vagos no final do corredor, com placas nas portas proibindo a entrada de crianças e funcionários, perguntei a uma menina mais velha o porque daquelas placas, achei estranho, a criança só me disse:

- A última tia que dormiu aqui e abriu a porta de um dos quartos proibidos saiu gritando e chorando e nunca mais quis voltar.

Não questionei muito o assunto, apesar de estranho o que eu acabara de ouvir podia ser um engano ou uma fantasia de criança, já era quase 11 horas da noite, e fui instruída a fazer as crianças irem dormir nesse mesmo horário em ponto, já havia me apresentado e conversado com cada uma delas na imensa sala de estar.

Nessa sala havia a escada de acesso ao segundo andar, a senhora que me apresentou o orfanato foi bem seca, de poucas palavras, só me disse que lá no segundo andar havia algumas máquinas de costura que voluntárias trabalhavam para manutenções e cria de peças de roupas.

Separei meninos e meninas em seus devidos quartos e deixei apenas uma lâmpada da parede do corredor acesa, eu tinha um quarto separado, as crianças pareciam comportadas e obedientes, o corredor estava praticamente escuro então entrei em meu quarto, que de passagem era mais grande do que o normal, havia uma cama de solteiro, um armário ao lado e um pequeno banheiro sem chuveiro.

Havia também no fundo perto de uma imensa janela de vidro alguns registros de encanamento de água desativados que por sinal pingava sem parar, mas não fazia barulho, fiquei bem atenta a principio e um pouco tensa, aquele quarto me dava arrepios e eu não conseguia relaxar meu corpo e muito menos conseguia dormir.

Comecei a ouvir barulhos no andar de cima, parecia alguém arrastando algum móvel pesado, fazia bastante barulho, fiquei aflita, podia ser um ladrão, Meu Deus será que ficou alguma janela aberta?

Fiquei com muito medo, e acendi a luz do quarto imediatamente, eu só pensava na segurança das crianças, o barulho parava mas voltava e assim sucessivamente, abri a porta do meu quarto bem devagar e fui caminhando em passos leves com uma lanterna na mão pelo corredor, abri a porta dos quartos das crianças e vi que estavam todas dormindo.

Não acendi nenhuma luz, caminhei com a lanterna até a cozinha e peguei uma imensa faca que ficava em cima da geladeira por segurança, subi as escadas passo a passo, e cada vez mais ouvia o barulho.

Chegando no segundo andar acendi uma luz que clareava apenas parte de algum tipo de salão cheia de máquinas de costuras, manequins, e caixas de papelão, o resto do segundo andar ainda estava escuro, eu gritei em tom ameaçador com a faca que quem estivesse ali aparecesse, Meu Deus de onde tirei essa coragem?

Fui acendendo todo aquele espaço, até poder ver tudo que ali estava, mas o barulho parou, não vi ninguém ali, espera, tem uma lona preta cobrindo algo que parece ser alguém se escondendo, fui devagar até a visão suspeita com a faca apontada, respirei fundo e puxei a lona de uma vez pronta para me defender, quando olho, era só um manequim, procurei qualquer lugar que alguém poderia esconder, mas não achava ninguém.

Até que ouvi passos altos de alguém descendo a escada correndo, fui atrás, a sala de estar estava escura, não lembrava nem achava aonde podia acender as luzes, apenas iluminava com a minha lanterna, por toda aquela treva quando senti alguém me puxando.

Era a menina mais velha, que inclusive me assustou, ela perguntou se eu estava bem, e eu disse que não foi nada, apenas pedi para que ela voltasse para seu quarto, a menina me questionou sobre a faca que eu carregava na mão direita.

Eu tive que contar sobre o barulho, mas que tudo estava sob controle já, mas no fundo não queria assusta-lá, o tempo que estávamos ali eu sentia alguém me olhando o tempo todo e por todos os lados daquela sala.

Sabia que havia alguém ali que desceu a escada correndo, a menina dizia que precisava conversar comigo, mas eu aflita com sua segurança ordenei que fosse para seu quarto e que se tivesse chave a trancasse.

Finalmente sozinha somente eu e algum psicopata querendo brincar de pique esconde comigo, mas quando pensei que quem achasse quem primeiro poderia morrer quase sujei a calça. Cadê a minha valentia igual lá em cima? Ora bolas...

Pensei em ligar para a polícia, mas o telefone estava mudo e meu celular esquecido em casa, fui pro corredor e acendi as lâmpadas, que clareava um pouco da sala, senti um instante de paz e silêncio, até ouvir uma porta fechar lentamente.

Não era das crianças, e nem o meu, mas sim de um dos quartos no final do corredor, um dos quartos proibidos, troquei a faca por um machado que achei no banheirinho do meu quarto.

Fui no final do corredor enquanto ouvia novamente barulhos de máquinas de costura sendo arrastados no segundo andar, Merda! Não é só um ladrão, deve ter uma quadrilha inteira aqui dentro, mas estava focada em entrar no quarto, sabia que era proibido entrar lá, mas havia um dos ladrões lá dentro, e eu estava armada com um machado.

Chegando até a porta botei a mão com muito cuidado sobre a maçaneta e lentamente fui a girando até abrir, bem devagar fui abrindo a porta enquanto mirava o machado pra frente, acendi a luz do quarto...

Era um quarto muito maior, cheio de prateleiras de aço, e algumas pias grandes que pareciam bebedouros, mas era pia mesmo, o chão era cheio de manchas vermelhas parecendo sangue que ali caiu, mas a muito tempo, não consegui achar ninguém, mas vi alguns sacos pretos em cima das prateleiras.

Aaahh...que bobeira não é possível que eu vou cair de novo nesse conto! São apenas mais manequins talvez novos ali deitados naqueles sacos, que nem aquele que vi lá em cima.

Mas tinha certeza que acharia o ladrão tentando se esconder também, as prateleiras estavam cheios desses sacos pretos com algo embrulhado, fui com cuidado em um destes sacos e puxei até poder ver o que ali dentro acharia, até que o que ali encontrei não era manequins e sim gente morta.

Havia um homem pálido com a garganta mal costurada em carne viva, digo, morta! O homem estava de olhos abertos e vidrados, olhei por toda a minha volta e ali estava eu rodeada de...de corpos?

Entrei em pânico, corri dali, mas quando me aproximei da porta ela se fecha sozinha, bati, bati nela chorando e gritando, as lâmpadas do quarto começaram a piscar ouvindo o barulho da energia elétrica, algumas começaram a estourar e eu não conseguia abrir a porta parecia trancada por fora.

Ficou apenas uma lâmpada acesa, e eu olhava atentamente a cada saco preto nas prateleiras, o corpo do homem que achei deixei exposto, ali, duro, de olhos abertos, sentia que quando a ultima lâmpada apagasse ele dali fixaria seus olhos em mim e levantaria.

Diante de tanto pânico consegui abrir a porta, as crianças estavam todas do lado de fora, todas paradas olhando fixamente para mim, os olhos de cada criança estavam com uma espécie de bolas vermelhas ao invés de pupilas.

Sai em choque dali em direção a sala, que estava escura, fui tentando caminhar em direção a escada, as luzes do andar de cima estavam acessas, quando comecei a subir as escada uma máquina de costura cai do alto dela quase me atingindo, que por sorte consegui descer a tempo.

Minha visão começa a embaçar, vejo as crianças se aproximando, mas não consigo mais ter forças, só lembro de me apagar e acordar com a luz acessa da sala, e as crianças em minha volta, desta vez seus olhos estavam normais.

Fiquei mais calma e procurei saber se estavam todas bem, elas me disseram que eu comecei a gritar sozinha e correr de ninguém, fiquei com cara de taxo, no meio de tantas crianças não era possível eu ser a adulta que cria fantasias.

A menina mais velha de idade e também do orfanato me contou que eu fui mais uma das ''tias'' influenciadas por eles, mas por eles quem?

Ela me contava que sabia de toda a história daquele lugar, que antes de ser orfanato, era um necrotério, ali chegava corpos de todo o tipo de gente, mortos por todos os tipos de causas...

Eu a interrompi dizendo que ali ainda é um necrotério, pois vi defuntos nas prateleiras do último quarto do corredor, ela me confirmou que não havia nada ali e que só não abriria aquela porta para me provar que foi tudo uma ilusão minha porque poderia acontecer tudo de novo.

A menina me dizia que seus pais e únicos tutelares que tinha, quando morreram em um acidente de carro passaram na época pelo antigo necrotério, antes ali, e que fala com eles de vez em quando, ela me contava que eles diziam ter várias almas presas no orfanato, procurando ajuda, ou atrapalhando quem se atrevesse abrir os quartos que diziam se habitar (os famosos quartos proibidos do final do corredor).

Os barulhos na escada, passos, ou máquinas arrastando segundo as crianças ouvem sempre, mas que se acostumaram, só não acostuma funcionários alí, e eu era mais uma que despedi já no amanhecer daquelas crianças, a outra novata chegava e eu peguei minha mochila e fui caminhando pela longa estrada de terra cercada de árvores secas, tentando não me sentir ser observada por espíritos que ficavam ali.


Olhei para trás do lado de fora pra uma das imensas janelas de vidro do segundo andar, e vi uma imagem humana embaçada com vestes pretas olhando para mim, sai dali correndo pra nunca mais voltar.













Nenhum comentário:

Postar um comentário